EDITORIAL » O Nobel e a paz

Publicação: 09/10/2017 03:00

A Campanha Internacional para a Abolição das Armas Nucleares (Ican, sigla em inglês) ganhou o Prêmio Nobel da Paz 2017. A premiação foi anunciada, sexta-feira, em Oslo, na Noruega, e foi entendida como recado aos líderes dos países que não aderiram ao Tratado de Não Proliferação de Armas Nucleares (TNP), discutido por 141 países e aprovado por 122 votos a favor, uma abstenção (Singapura) e um contra (Holanda) na Conferência da Organização das Nações Unidas em julho deste ano. Não participaram das negociações os nove países que têm armas nucleares: Estados Unidos, Rússia, Reino Unido, França, Israel, China, Índia, Paquistão e Coreia do Norte.

O Comitê Nobel destacou o “renovado vigor” das ações da Ican, organização não governamental transnacional, criada na Austrália, hoje com sede em Viena, capital austríaca, que congrega mais de 400 instituições em 100 países, para o resultado da Conferência da ONU. A aprovação do TNP chegou 72 anos depois da tragédia de Hiroshima e Nagasaki, no fim da Segunda Guerra Mundial. Para entrar em vigor, o tratado ainda precisa ser ratificado por pelo menos 55 nações.

O Nobel da Paz emerge em cenário internacional conturbado ante a sequência de testes nucleares e disparos de mísseis balísticos, promovidos pelo ditador norte-coreano Kim Jong-un, e o risco de quebra do acordo, assinado em 2015, entre o Irã, os cinco membros permanentes do Conselho de Segurança das Nações Unidas — China, Estados Unidos, França, Reino Unido, Rússia — e a Alemanha. O presidente norte-americano, Donald Trump, pretende comunicar ao Congresso dos EUA que Teerã não está cumprindo os termos do acordo, construído pelo seu antecessor, Barack Obama.

Trump e Kim têm travado um duelo verbal. Ambos ameaçam desembainhar artefatos bélicos, como medida extrema. Em meio ao conflito, está o Japão, um dos alvos do ditador. Potências, como China e Rússia, têm travado os embargos econômicos aprovados pela ONU contra a Coreia da Norte. A blindagem fortalece o ditador. Ele prossegue com os testes que desestabilizam o leste asiático e ameaçam a capenga paz mundial.

A decisão do Comitê Nobel se contrapõe à disposição de muitas nações de retomarem seus projetos nucleares, o que torna o mundo mais vulnerável a conflito que pode dizimar milhões de vidas. São iniciativas condenáveis. Não cabem no século 21. Os fenômenos climáticos, as desigualdades socioeconômicas, as guerras localizadas e tantos outros e graves problemas somam grandes desafios a serem vencidos pela humanidade.

Investimento em produção de armas de elevado potencial de destruição, com altíssima tecnologia, é fomentar a dizimação do homem pelo homem, expressão máxima de desprezo pela vida. Tais decisões não cabem nos tempos atuais. “Não é assim que se constrói a segurança”, afirmou a diretora do Ican, Beatrice Fihn. Eis um exemplo de racionalidade e de bom senso que as sociedades esperam dos mandatários de todos os países.

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