Homenagem pelo centenário do escritor José Condé

Marly Mota
Membro da Academia Pernambucana de Letras e membro da Academia de Artes e Letras de Pernambuco

Publicação: 07/10/2017 03:00

A Academia Pernambucana de Letras, à frente a nossa presidente Margarida Cantarelli, festejou na tarde da segunda-feira, dia 25 de setembro, o grande e igualmente esquecido escritor José Condé. Ele e Mauro Mota amigos fraternais. O Zé da nossa convivência, afetiva. No Recife, em nossa casa à Rua Amélia e no Rio de Janeiro, à Rua da Matriz, em Botafogo.
Maria Luisa, companheira infatigável de Condé e do seu êxito literário, plantara em mínimo espaço do jardim um pequeno umbuzeiro (superestimado) sem querer levantar do chão, sentindo falta do clima do Agreste. Em casa, deitado ou sentado, tinha aos seus pés os velhos e amados vira-latas, Teddy e Pepito.  Nas vindas ao Recife, José Condé com Mauro Mota visitavam o Instituto Joaquim Nabuco de Pesquisas Sociais, a casa de Gilberto Freyre, a do colecionador de arte sacra e popular, Abelardo Rodrigues, recebendo de José Condé peças do artista Vitalino.
Mauro Mota, quando diretor do Diario de Pernambuco, na sua coluna “Agenda” em 19 de fevereiro de 1970, escreve: “O Romance O Vento do Amanhecer em Macambira do escritor José Condé, considerado sua obra-prima. O que senti na releitura desse livro? Que o querido José Condé amanhece e volta!”
E volta! Como nesta tarde, em nossa Academia, pelas lembranças revividas, por pessoas que o admiravam. O professor, escritor Edson Tavares, lança o seu excelente livro: O Caso José Condé, O Nome do Autor, Editora Appris, Curitiba-PR, 2017; com depoimento do diretor do Instituto Histórico de Caruaru, escritor Valmiré Dimerson. Como palestrantes as acadêmicas Ana Maria César, emocionada fala da sua infância na cidade de Caruaru. Nossa vice-presidente Luzilá Gonçalves, sempre fluente, solicitada a ajudar a pronúncia de um vocábulo francês. Sem mérito, atendo ao convite da nossa presidente Margarida Cantarelli para reverenciar, José Condé, amigo de Mauro Mota e meu.
  Luciana Mota, morando em Paris, recebe e acompanha o querido casal Condé vindos de viagens além Portugal. Condé desembarca muito enfraquecido com frequentes hemorragias, durante a viagem, vomitando sangue. Comentava aflita, Maria Luiza. José Condé protestava: Não era sangue, era uísque. Internado no Hospital de Montrouge a 30 minutos de Paris foi diagnosticado com cirrose, causada pelos caramujos nos banhos frequentes, no Ipojuca, com a meninada da sua idade, e da vizinhança da Escola de Zé Leão. O Rio Ipojuca um dos mais poluídos de Pernambuco. Em agosto de 1970, noite da posse de Mauro Mota na Academia Brasileira de Letras, José Condé muito doente, queria ver Mauro vestido com o fardão. Luisa levou-o ao Hotel Florida, nossa casa no Rio. Condé duplamente emocionado, pelo amigo e por ele próprio, sem tempo para a sonhada glória acadêmica. Nossos filhos presentes. Luciana retornou de Paris à posse do pai. Com os Condé se hospedara. Aos domingos passávamos às tardes, com eles à Rua da Matriz. Levávamos o lanche, à mesa Mauro Mota procurando distrair o amigo, levanta-se solene, fazendo suspense, bate forte na mesa, fala alto: O presunto à mesa não foi comprado na padaria da esquina. É da minha Indústria: “Presumota.” Não se perde nada, enlato, até o “ronco do porco.” Todos se retorciam de tanto rir. O nosso Zé Condé,  sem forças para soltar sua famosa gargalhada. Numa tarde de setembro de 1971,  aos 51 anos, morre o José Condé, deixando  o muito dele,  em todos nós.

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