Velhos vícios da direita brasileira

Alexandre Rands Barros
Economista, PhD pela Universidade de Illinois, presidente da Datamétrica e do Diario de Pernambuco

Publicação: 07/10/2017 03:00

O Brasil tem dois tipos de direita. Uma que se autorreconhece como tal e defende ideias que tendem a concentrar renda e beneficiar as elites locais, incluídos aí os segmentos sociais que controlam o estado brasileiro, seja como funcionários públicos ou políticos. Ela pode ser denominada de direita autodeclarada. A segunda direita brasileira é aquela que se auto-proclama defensora dos segmentos populares e por tal seus representantes se acham de esquerda, mas sempre defendem políticas e arcabouços institucionais que beneficiam os ricos ou a classe média que mantém sua renda e status quo pela sua associação com o estado. Essa pode ser chamada de direita travestida. Cada uma delas possui seus próprios cacoetes. Aqui trataremos dos três principais vícios da primeira no que diz respeito a ideias macroeconômicas.
O primeiro deles é sempre recorrer à poupança externa para permitir uma taxa de câmbio valorizada. Com isso se consegue controlar a inflação ao mesmo tempo que o governo pode ter baixas taxas de poupanças para que possa estar a serviço de uma elite que vive agarrada ao setor público para garantir seu bem-estar, sem ferir outros segmentos que se incomodariam com impostos elevados. Funcionalismo público, incluindo aposentados de alta remuneração, e empresários dependentes do governo são os principais beneficiários dessa política. Esse vício compromete o crescimento da economia do país, sacrificando principalmente nossas atividades industriais que possuem menor vantagem comparativa do que os produtos primários. Aos poucos a política monetária do atual governo vem permitindo essa valorização, sem combatê-la com a queda da taxa de juros no ritmo necessário.
O segundo vício é permitir a venda excessiva de ativos nacionais a estrangeiros. Essa também é uma forma de atrair poupança externa e trazer as consequências tratadas no parágrafo acima. Entretanto, essa política, quando conduzida com os exageros proporcionados pela direita, termina por reduzir a perspectiva de crescimento de longo prazo, pois reduz a geração de tecnologia interna e força um equilíbrio cambial perverso no futuro, comprometendo boa parte da nossa geração de divisas com remessas de lucros, royalties, etc. As vendas das usinas hidrelétricas em semana recente, assim como as concessões de blocos para exploração de petróleo, que tiveram em empresas estrangeiras os principais arrebatadores, é uma demonstração de ação típica dessa direita autodeclarada e que custará muito a nós brasileiros no futuro.
O terceiro vício é permitir equilíbrios de longo prazo com taxas de juros elevadas no país, transferindo assim renda de quem trabalha para quem vive de aplicações financeiras. Construiu-se assim um estado endividado que requer taxas de juros altas para assegurar o financiamento de sua dívida. Vale salientar que esse vício é um dos pilares do sucesso dos outros dois, pois é ele que atrai poupança externa para o país e viabiliza a venda de nossos ativos a estrangeiros. Ou seja, o instrumento principal para esses vícios é a manutenção do estado endividado. Essa lógica inclusive assegura a aliança de setores empresariais retrógrados, que vivem pendurados no governo, com a alta cúpula do funcionalismo público e políticos. Romper essa aliança, que implica em reduzir o tamanho do estado, com uma reforma adequada da previdência social é uma forma de iniciar a quebra dessa aliança nefasta, que tem inclusive unido as duas direitas brasileiras, a autodeclarada e a travestida. A cada dia, contudo, o poder político da direita autodeclarada cresce no país, e com isso compromete cada vez mais o potencial de crescimento do país e geração de bem-estar para a maioria da população.

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