EDITORIAL » Na encruzilhada da verdade

Publicação: 07/10/2017 03:00

A história dos recibos de aluguel do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva chegou a uma encruzilhada da qual ele ou o Ministério Público Federal (do Paraná) sairá profundamente chamuscado. Ontem o MPF afirmou ao juiz federal Sérgio Moro que, “sem margem a dúvidas”,  os recibos são “ideologicamente falsos”, e cobrou da defesa do ex-presidente a apresentação dos originais. Também requereu a apuração da autenticidade dos documentos.
Diz o MPF que a realização de uma perícia no material é “imperativa”, no sentido de “aclarar aspectos pontuais com relação à confecção dos recibos de que se trata, considerando que foram apresentados perante o Poder Judiciário, no curso da ação penal”. São três os pontos necessários de esclarecimentos, segundo o MPF: 1) se os recibos foram firmados por Glaucos da Costamarques, proprietário do imóvel no cartório; 2) caso tenham sido, é preciso informar quando as assinaturas dos recibos foram efetuadas: 3) apurar se nos documentos há montagens e/ou adulterações.
O aluguel objeto da questão é o do apartamento 121, do edifício Hill House, em São Bernardo do Campos (SP). Lula nega qualquer irregularidade no negócio: diz que não é dono do imóvel e que o pagamento dos aluguéis foi efetuado. Para isso, a defesa dele enviou à Lava-Jato, em 25 de setembro passado, documentos que comprovariam a lisura do negócio: um contrato feito pela ex-primeira dama Marisa Letícia com Glaucos da Costamarques e os recibos de pagamento do aluguel — estes chamaram atenção porque em dois deles a data apresentada não existe no calendário. Além disso, há erros de ortografia que se repetem em alguns dos documentos.
Sem entrar no mérito da questão, seria de um amadorismo tremendo que, a essa altura dos acontecimentos, a defesa do ex-presidente apresentasse à Lava-Jato documentos falsificados. Mas é isso que se deve investigar. “A realização de perícia nos recibos irá demonstrar que eles são idôneos e que foram assinados pelo proprietário do imóvel, dando quitação dos alugués à D. Marisa, que contratou a locação”, afirmou ontem em nota o advogado Cristiano Zanin Martins, defensor de Lula. “O questionamento do MPF é uma tática ilusionista de quem não conseguiu provar que valores provenientes de contratos da Petrobras beneficiaram o ex-presidente Lula”.
 “O proprietário do imóvel jamais negou que tenha emitido os recibos, tampouco levou ao processo qualquer declaração de que tenha assinado os documentos em uma única data, como se verifica na petição por ele protocolada em 28/09”, continua a nota. “Ele demonstrou ter adquirido o apartamento com recursos próprios, por meio de cheques administrativos, e não com valores de contratos da Petrobras.”
Tanto a defesa do ex-presidente quanto o MPF querem a perícia dos documentos. O MPF diz que eles são “ideologicamente falsos”, enquanto a defesa afirma que são “idôneos”. É impossível que ambos estejam certos. É fundamental que se faça a perícia. Ela irá mostrar qual das duas partes precisa rever suas afirmações.

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