EDITORIAL » Mais armas, mais mortes

Publicação: 05/10/2017 03:00

A facilidade de acesso a armas nos Estados Unidos é uma das principais causas dos homicídios em massa que ocorrem na maior potência mundial. Lá, compram-se artefatos de fogo e munição como se fossem produtos de uso pessoal, e com amparo na Emenda nº 2 da Constituição norte-americana. Na segunda-feira, do 32º andar de um prédio, um desatinado direcionou seu fuzil para a plateia que assistia a um show ao ar livre em Las Vegas. Até agora, 52 morreram e 527 ficaram feridos.

Não foi e, provavelmente, não será a última matança que aconteceu na terra do Tio Sam e que consterna o mundo. Ainda assim, o governo norte-americano, sob o comando de Donald Trump, rejeita a ideia, defendida pelo antecessor Barack Obama, de revisão das normas de comercialização de armas e munições. O republicano, como a maioria dos que o elegeram, defende o direito de cada cidadão andar armado. Nos EUA, estima-se que há 300 milhões de armas em poder da população de 323 milhões de pessoas. Ou seja, quase uma arma por pessoa. Entre as nações desenvolvidas, a norte-americana ocupa a primeira posição em violência por arma de fogo.

Tantas mortes só consternam. Nada mais. No Congresso Nacional, está em curso ampla campanha para desmontar o Estatuto do Desarmamento, em vigor desde 2003. A bancada da bala da Câmara de Deputados, apoiada por parlamentares conservadores e permeável aos interesses da indústria bélica, está empenhada em garantir a livre comercialização de armas e munição, como nos Estados Unidos. Aos poucos os parlamentares têm conseguido desmontar o estatuto. Há poucos dias aprovou projeto que permite aos agentes de trânsito o porte de armas. Hoje, cresce o número de policiais vítimas de latrocínio. A maioria deles morre nos dias de folga e tem o revólver roubado pelos criminosos. O risco dos agentes de trânsito serem, igualmente, vítimas do crime é bastante alto, na avaliação dos especialistas.

O movimento armamentista tem avançado. A produção e venda de armas no Brasil cresceu 66% de 2015 para 2016, segundo dados da Indústria de Material Bélico (Imbel). As mais procuradas são as pistolas 380 e calibre 40 — menores e mais baratas. Em contrapartida, a Campanha de Desarmamento recolheu 17 menos artefatos entre 2015 e 2016. Coincidência, ou não, a taxa de homicídios cresceu 7% no período. Em 2015, ocorreram 59.080 homicídios —162 vítimas por dia ou uma taxa 28,9 mortes em cada 100 mil habitantes. Mais de 42 mil ocorrências foram por arma de fogo, usadas em quase 80% dos casos como solução de conflitos pessoais.

O desmanche pleno do Estatuto do Desarmamento aumentará exponencialmente o lucro da indústria bélica e também o número de homicídios por arma de fogo no país. O crescimento do número de policiais armados vitimados mostra que o porte do artefato não garante segurança para aqueles que foram capacitados e treinados para o seu uso. A redução da violência passa, necessariamente, pela revisão e implementação de uma política nacional de segurança pública, o que implica ações coordenadas entre as secretarias estaduais, controle mais rigoroso da venda de armas e munições, intensificação do desarmamento da população civil, entre outras medidas que propiciem a pacificação do país, que ocupa a primeira posição em número de homicídios no ranking mundial.

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