Viver com tão pouco

Luzilá Gonçalves Ferreira
Doutora em Letras pela Universidade de Paris VII e membro da Academia Pernambucana de Letras

Publicação: 03/10/2017 03:00

“A quem Deus deu só dois pés, um par de sapatos basta”. Em Racines (Raízes), Hélène Cixous transcreve essa frase que o avô, judeu, levado a emigrar do pais onde nascera, repetia a membros da família. No curso que ministrava no Instituto de Filosofia, perto da Rua Mouffetard, no Quartier Latin, em Paris, a escritora falava sobre a expressão do amor em Clarice Lispector e a poesia de seus textos: O mais verdadeiro é poético (Le plus vrai est poétique) e mais: como ver o que não se vê mais?. Nota: Hélène, a quem se deve em grande parte, a difusão da obra de Clarice na França, estudou português para ler a autora de Água Viva no original. E nos mostrava a que ponto a lição aprendida do avô, servia à leitura de Clarice: economia de meios, dizer muito, significar muito, com poucas palavras, sempre escolhidas, pesadas de sentido, características da poesia. Sábado passado, uma oportuna matéria neste jornal nos descrevia a mania que têm, certas pessoas, de comprar, comprar coisas desnecessárias, às vezes, contraindo dividas, multiplicando cartões de crédito. O adolescente que se divertiu e se encantou com As Aventuras de Tom Sawyer recorda o modo como Mark Twain descreve s pobreza da família: É domingo, Tia Molly chama Tom para se preparar para ir ao culto. O grande escritor escreve: Tom lavou o rosto e foi vestir a outra roupa. E acrescenta: “por aí o leitor entende a extensão do guarda-roupa de nosso herói” (algo assim). Uma amiga me confessou ( e como invejo!): cada vez que compro, um vestido, faço doação do outro, agora desnecessário. Mas a grande lição de desapego nos vem da minha querida Raquel de Queiroz, simplicidade e generosidade em pessoa, em seu livro quase memórias culinárias “Não me deixes”. Falando da vida dura no Sertão escreve: “Há um prazer áspero na permanente descoberta de quanto supérfluo a gente se sobrecarrega e de como é fácil a gente se despojar dele. É como tirar uma casca suja. Ou uma pele velha, seca, engelhada. Viver no dia a dia sem conhecer ambição, mesmo porque não há o que se querer. Só comparo o Nordeste à Terra Santa. Homens magros, tostados, ascéticos. A carne de bode, o queijo duro, a fruta de lavra seca, o grão cozido em água e sal. Um poço, uma lagoa é como um sol líquido, em torno do qual gravitam as plantas, os homens e os bichos. Pequenas ilhas d’água cercadas de terra por todos os lados, e em redor dessas ilhas a vida se concentra. O mais é a paz, o sol, o mormaço”. Bendita Raquel de Queiroz.

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