EDITORIAL » Efeito colateral da violência

Publicação: 03/10/2017 03:00

A Catalunha viveu clima de guerra no domingo. Sob forte repressão policial, 2,2 milhões de catalães foram às urnas para manifestar-se no plebiscito sobre a independência da região autônoma. O número representa 42% do eleitorado — menos da metade do total de 5,5 milhões. Segundo o governo local, 90% dos votantes disseram sim à secessão.

Madri tomou medidas duras para impedir a consulta, considerada ilegal pelo Tribunal Constitucional do país. Entre elas, apreensão de 3 milhões de cédulas de votação, cerceamento de acesso a seções eleitorais, ampliação das forças de segurança, censura à internet, prisão de políticos e ativistas. Confrontos deixaram saldo amargo: mais de 840 feridos.

Líderes estrangeiros, que preferiam se manter à margem da polêmica questão interna, manifestaram-se contra a brutalidade das forças de segurança. Imagens de seções eleitorais invadidas, idosos pisoteados, milhares de pessoas votando sob forte chuva, uso de balas de borracha invadiram os noticiários e as mídias sociais.

Ocorreu, então, o que os separatistas mais queriam: conquistar a simpatia dos que se opunham à consulta e colorir de legitimidade uma ação flagrantemente inconstitucional e contrária ao Estatuto de Autonomia da Catalunha. O governo central fez cumprir a lei, mas terá de pagar preço alto pela falta de tato. Vale lembrar que a tensão independista se estende desde 2012. Em cinco anos, o presidente Mariano Rajoy foi incapaz de sentar-se à mesa para buscar saídas diplomáticas.

Não é de hoje que a parte mais rica da Espanha — responsável por 20% do Produto Interno Bruto nacional — reivindica a independência. Move-a a tese que levou os britânicos a abandonar a União Europeia. Sozinhos, pensam eles, seriam mais prósperos. Ocorre que, para a validade da consulta, impõe-se combinar com os russos. É preciso um acordo entre o governo central e o catalão para firmar um pacto e, com isso, talvez romper o impasse.

A Constituição, não se pode esquecer, considera a nação espanhola indivisível. As 17 regiões que compõem o país, muitas das quais, como a Catalunha, com identidade cultural e linguística, gozam de relativa autonomia. Transformar-se em país independente implica longa e espinhosa negociação. A Escócia pode servir de exemplo. Em 2014, os escoceses preferiram permanecer no Reino Unido.

A Catalunha quer mediação internacional para resolver o impasse. Em outras circunstâncias, a reivindicação soaria um tanto esdrúxula. Mas, diante das cenas de violência desnecessária contra pessoas desarmadas, novos argumentos podem ganhar vulto. Entre eles, cerceamento à liberdade de expressão e desrespeito aos direitos humanos. Até a reconstrução de pontes, muita água há de correr.

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