Autor engajado, Hermilo desperta paixão do leitor

Raimundo Carrero *
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Publicação: 02/10/2017 03:00

Hermilo Borba Filho fez opção política na literatura desde que percebeu a força e a importância deste caminho transformador das artes, apesar dos riscos do panfleto. Correu riscos, o que era natural nele, um escritor de grande criatividade e aguda inteligência. Um autor sem medo e sem susto, capaz de criar alguns dos nossos melhores romances. Por isso definiu-se como autor “engajado” numa atitude de permanente luta social, em guerrilha que se percebe, com clareza, até na sua novela póstuma “Os Ambulantes de Deus”, editada pela Civilização Brasileira na década de setenta e agora reeditada pela Cepe, junto com os contos que se constituem naquilo que melhor escreveu o grande autor pernambucano. Assim o leitor mais jovem pode conhecer a sua obra.

Afirma Mário da Silva Brito que. acima de tudo, para Hermilo, “a liberdade e a dignidade estão em crise” e, sob este slogan sentava-se todos os dias para  escrever, numa verdadeira profissão de fé, lutando com suas palavras e suas histórias, transformando todos os seus textos em metralhadora giratória. Assim escreveu obras exemplares e avançou, mesmo quando não era possível avançar. Disso tinha orgulho até a falência do coração em 1976.

No entanto, o caminho de um não é necessariamente o caminho do outro. E o autor devotado à iluminação da natureza humana está no mesmo front e na mesma guerrilha, com natural empenho. Veja-se, por  exemplo, o romance Sol das Almas, onde a solidariedade e a compaixão de Hermilo com o personagem Jó tem a   mesma força do engajamento político com o personagem Recombelo, e sua nau dos esperançosos ou desesperançados. Sendo que a alma de Jó se transforma nesta definitiva solidariedade com todas as almas e todos os espíritos. Com algumas das páginas mais bem escritas da nossa literatura. Embora pense em Sartre e seu engajamento, imagino que não há engajamento mais perfeito do que aquele que se solidariza com todo espírito humano. Em todas as circunstâncias. Encanta-me a magnífica criação de Recombelo, e sua profissão de fé política, mas não posso deixar de me ajoelhar diante do Jó.

* Escritor e jornalista

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