EDITORIAL » Guerra ao tráfico

Publicação: 02/10/2017 03:00

Perdemos a capacidade de indignação? O senso crítico desapareceu? As questões vêm a propósito do crescente — quase incontrolável — poder do tráfico no país. Divulga-se, com a naturalidade de quem anda pra frente, que a ordem de cometer atos de violência partiu de presídio de segurança máxima. Traficantes encarcerados comandam incêndios em ônibus, suspensão de aulas, fechamento do comércio, interdição de ruas.

No dia 17, uma centena de bandidos invadiram a Rocinha, no Rio, para tomar o controle do comércio de drogas das mãos do traficante Rogério 157. O pânico não se restringiu ao morro. Espalhou-se pela cidade. Soube-se que a ordem de cometer a ação de guerra teria partido de Antônio Francisco Lopes, o Nem da Rocinha. O chocante: Nem cumpre pena em presídio federal a milhares de quilômetros do Rio — Porto Velho, Rondônia. Como consegue burlar a distância e a proibição de telefone ou internet para se comunicar?

O confronto levou à convocação das Forças Armadas, que cercaram a comunidade durante uma semana. Na sexta-feira, os 950 homens retiraram-se porque “a favela está estabilizada, a situação normalizada”, segundo afirmou o porta-voz do Comando Militar do Leste. O estarrecedor é o significado de normalidade — a volta ao status quo, caracterizado pela manutenção do bairro nas mãos do tráfico, que controla o território e serviços essenciais, como o fornecimento de gás aos moradores. Nada garante que os confrontos não voltem a ocorrer a qualquer hora.

A tragédia não se restringe ao Rio. Espalha-se Brasil afora embora sem a dramaticidade registrada na ex-capital do país. Na quinta-feira, a Polícia Civil desmontou milícia do tráfico no Distrito Federal. A operação acende a luz vermelha: forma-se, na capital da República, esquema semelhante aos que atuam no Rio. O líder comunitário Alisson Borges comercializava terrenos ilegalmente e se encarregava de espalhar o medo na região. Tal como na cidade símbolo do país, não agia sozinho. Políciais militares, traficantes de drogas e servidor da administração colaboravam nas ações. Ele vendia facilidades para conquistar poder e a simpatia dos moradores. Ambicionava até disputar cargo eletivo.

Ninguém precisa de bola de cristal para afirmar que medidas urgentes se impõem. A semente da criminalidade germina em ambientes onde o Estado se ausenta. Saúde, educação, lazer, segurança precisam marcar presença. A população tem de se sentir segura e amparada por quem detém o monopólio da força e tem o dever de zelar pelo bem comum. Não só. Há que se controlar as fronteiras para evitar a entrada de armas e drogas. Convoquem-se inteligência, tecnologia e vontade política.

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