Por uma Genealogia da Malandragem!

João Evangelista Tude de Melo Neto
Professor do curso de Filosofia da Unicap. É doutor em Filosofia pela USP e membro do Grupo de Estudos Nietzsche (GEN).

Publicação: 30/09/2017 03:00

Por que o cidadão brasileiro que, com razão, cobra honestidade dos políticos não enxerga contradição em, por vezes, fazer uso dos expedientes do jeitinho e da malandragem para resolver seus problemas cotidianos? Na verdade, essa questão nos mostra que, no Brasil, existe uma espécie de “dualidade de paradigmas morais”. Afirmamos isso porque uma moral mais tradicional, que tem por princípio a honestidade e o cumprimento do dever, convive, lado a lado, com uma espécie de “moral” paralela, isto é, a “moral” da malandragem. Esta última tendo como referência a valorização de uma astúcia que visa “sempre levar vantagem em tudo”. Curiosamente, essa dualidade não ocorre de forma dicotômica e excludente, já que os dois referenciais “morais” não se anulam no dia a dia brasileiro. Em outras palavras, não é o caso que haja dois grupos de pessoas e que cada grupo siga exclusivamente um dos paradigmas – não temos o grupo dos honestos de um lado e o grupo dos malandros de outro, pois, por vezes, são os mesmos indivíduos que transitam entre os dois modelos morais. Nesse sentido, podemos afirmar que, por aqui, dependendo das circunstâncias particulares, tanto a “atitude caxias” quanto a “atitude malandra” podem ser consideradas bem-vindas e entendidas como “corretas”.

Ora, a admissão do jeitinho e de malandragem como elementos paradigmáticos à ação é algo mais complexo do que parece. Isso porque tomar essas “categorias” como modelo para o agir não significa apenas afirmar que em nosso país existe um alto grau de transgressão, mas denota que a própria transgressão se transformou em “modelo moral”! A figura do malandro, nesses termos, teria se tornado uma referência para o “dever ser” – uma espécie de “ícone de uma moral paralela”. Em outras palavras, no Brasil “ser esperto” e “sempre tirar vantagem” se converteu em norma!

No final do século 19, o filósofo alemão Friedrich Nietzsche se propõe a realizar um exame crítico dos valores morais e, com isso, inaugura o seu procedimento genealógico da moral. Rompendo com a tradição metafísico-religiosa, a qual considera os valores morais – valores como ‘mal’ e ‘bem’, por exemplo – como sendo eternos, universais e imutáveis, o pensador passa a concebê-los através de um viés histórico. Nesse contexto, o procedimento genealógico nos propõe uma forma de investigação filosófica que visa, num primeiro momento, indagar pela procedência histórica dos valores morais. Além disso, esse “método” nietzschiano também tem por objetivo realizar um julgamento desses mesmos valores. Isto é, o filósofo nos propõe a questionar acerca do valor dos valores. Tomando a “vida” como o critério avaliador dos valores, a “genealogia” pergunta: qual o papel das referências morais vigentes? Eles servem para conservar e engrandecer a vida? Ou promovem sua decadência? Ora, adotando essa referência metodológica, convidamos o leitor a também pensar o fenômeno da malandragem como resultado de processos histórico-culturais e, a partir disso, questionar até que ponto ela tem sido favorável ao engrandecimento e conservação da vida. Enfim, entendemos ser urgente tomar nossos problemas éticos como questões verdadeiramente filosóficas e colocar as seguintes questões basilares: o que levou a cultura brasileira a essa ambiguidade moral? O que fez com que nossa sociedade cultivasse certa glorificação da malandragem? Será que essa exaltação do tipo ‘malandro’ tem contribuído para o engrandecimento de nossa cultura ou provocado sua degeneração?

Por uma genealogia da malandragem brasileira! (C.f. MELO NETO, João Evangelista Tude de. Genealogia da malandragem. In. Revista Filosofia Ciência e Vida, nº 37, São Paulo: Escala, 2009.)

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