EDITORIAL » O mistério dos 'ataques sônicos' em Cuba

Publicação: 30/09/2017 03:00

O mundo está estranho, e para concordar com isso não precisa acreditar em teorias de conspiração — basta olhar o noticiário. Vejamos uma surpreendente notícia de ontem: um comunicado do Departamento de Estado dos EUA determinou a retirada da maioria dos seus diplomatas e funcionários da embaixada em Cuba. A determinação vai atingir todos os servidores considerados “não emergenciais” e seus familiares. “Mais da metade do contingente da embaixada será retirada de Havana. Todos os familiares de diplomatas e funcionários terão de deixar a cidade. A concessão de vistos será suspensa e os serviços diplomáticos serão restritos a casos emergenciais. OS EUA também passaram a orientar americanos a não viajarem para a ilha”, informou a Agência Estado.

“Até que o governo de Cuba possa garantir a segurança de nossos diplomatas em Cuba, nossa embaixada ficará reduzida ao pessoal de emergência, como forma de minimizar o número de diplomatas sob risco de ficarem expostos a danos”, afirma trecho do comunicado do Departamento de Estado. Qual a razão de procedimento tão radical, menos de três anos depois de os dois países terem reatado relações diplomáticas? Eis o que houve: uma série de ataques supostamente realizados com uma tecnologia ultra-avançada, mas não identificada, provocou náuseas, problemas cognitivos, dores de cabeça, insônia, desequilíbrio físico e até perda de audição em 21 integrantes da embaixada. Conforme apuração da Associated Press, agência internacional de notícias,  algumas das vítimas estariam com dificuldades para recordar palavras comuns e e conseguir se concentrar.

O início das investidas, segundo os EUA, aconteceu em dezembro de 2016, e a última delas ocorreu em agosto passado. A maioria dos atingidos encontrava-se em hotéis; nenhum deles na embaixada. Uma investigação realizada pelo governo americano concluiu que as pessoas foram afetadas por um “dispositivo ultrassônico”, equipamento com capacidade para funcionar em frequências superiores às que são costumeiramente captadas pela sistema auditivo humano. Tal dispositivo poderia estar instalado no interior ou no exterior dos apartamentos, casas ou prédios. Em virtude dessa investigação, em maio passado os EUA expulsaram dois diplomatas cubanos. Ontem, uma autoridade do Departamento de Estado disse aos jornalistas que não se descarta a participação de um “terceiro país” nos ataques.

O governo cubano nega qualquer participação nos acontecimentos. Em nota, informou que desde fevereiro passado foi aberta uma “rigorosa e urgente investigação” e garantiu que “Cuba jamais permitiu ou vai permitir que seu território seja usado para qualquer ação contra diplomatas e suas famílias, sem exceções”.

EUA e Cuba reataram relações no final de 2014, durante o governo de Barack Obama, após uma separação que durou 53 anos. Desde a posse de Donald Trump na presidência dos EUA, em janeiro passado, a relação entre os dois países enfrenta problemas — o novo mandatário americano paralisou o processo de reaproximação e impôs critérios (como o estabelecimento de “reformas democráticas” na ilha) para suspender sanções dos EUA.

Ataques “sônicos”, mistério, crise diplomática — episódios que parecem saídos de uma obra de ficção, mas que são na verdade assustadores componentes da situação desse estranho mundo de 2017.

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