Retorno a um período de trevas e sombras

Dóris Maria Lima dos Santos
Advogada e escritora

Publicação: 29/09/2017 03:00

No dia 15, o então general Antônio Hamilton Mourão, num encontro ocorrido na Loja Maçônica Grande Oriente, em Brasília, declarou estar a favor de uma intervenção do Exército na política brasileira, em virtude dos graves fatos que estão ocorrendo no nosso país,  após o Sr. Michel Temer ser denunciado pela segunda vez pelo Procurador Geral da República, na época, Rodrigo Janot, acusado de participar de organização criminosa e obstrução de justiça.

O posicionamento do general Mourão não me surpreendeu nem um pouco, mas, o que me deixou estupefata foi o comportamento da Dra. Janaína Conceição Paschoal, jurista e professora de Direito da USP, que se manifestou totalmente a favor do pensamento do general quanto à intervenção das Forças Armadas no nosso país. Não creio que esta senhora não tenha conhecimento do período negro e tenebroso que enfrentamos desde o dia 31/3/1964, até quando o então presidente João Baptista de Oliveira Figueiredo, o qual assumiu o governo em 1979/1985, após a saída de Ernesto Geisel que então já havia iniciado o processo de abertura política. Com o general Figueiredo não muito tempo após assumir o cargo ocorreu a concessão de anistia ampla, geral e irrestrita aos políticos cassados através de atos institucionais. A essa famosa jurista, não chegaram as notícias de quantos brasileiros foram massacrados, presos e torturados; muitos arrancados de dentro de suas casas, sumindo das vidas de suas famílias que sequer tiveram o direito de dar aos seus o direito de serem sepultados?

O fato de Dra. Janaína haver nascido em 25/6/1974, não significa que não veio a saber o que aconteceu com o deputado Rubens Paiva que teve sua casa invadida no Rio de Janeiro em 20/01/1971, por criaturas que  diziam fazer parte da Aeronáutica, que com metralhadoras e sem mandado de prisão o arrancaram do seu lar e até hoje seus familiares não conseguiram respostas aos seus questionamentos. As autoridades na época apenas diziam que ele havia desaparecido. Muito estranho não é verdade? Porém, anos depois, ou seja, 2014, a Comissão Nacional da Verdade, baseada em denúncia de outro envolvido, coronel da reserva Armando Avólio Filho, o qual afirmou ter sido o ex-tenente do exército, Antônio Fernando Hughes de Carvalho, oficial do CPOR (Centro de Preparação de Oficiais da Reserva), com ligações junto à Cisa (Centro de Informações de Segurança da Aeronáutica, o assassino do deputado.

Não muito diferente o que ocorreu com Stuart Angel Jones, filho da estilista Zuzu Angel. A mesma Comissão, colheu o depoimento do capitão reformado da Aeronáutica, Álvaro de Oliveira Filho, o qual afirmou que o corpo do jovem, que morreu sob tortura em 1974, havia sido enterrado na cabeceira da pista da Base Aérea de Santa Cruz, no Rio de Janeiro. Será esta a herança que a jurista Janaína  Paschoal quer deixar para os seus, nossos netos? Existem muitas maneiras de se acabar com a corrupção de um país, sem que haja derramamento de sangue. Mirem-se no exemplo da Suécia que há um século era um país pobre e corrupto, cuja população conseguiu dar um basta naquele estado de coisas e hoje é um país rico e sem corrupção. 

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