A arte de conviver

José Paulo Cavalcanti Filho
Jurista e membro da Academia Pernambucana de Letras

Publicação: 29/09/2017 03:00

Lisboa. De longe, tudo parece mais claro. Vivemos, hoje, uma crise de relações. Um curto circuito ético, jurídico e político. O esgotamento de certas práticas sociais. A ética da amizade. O compadrio. Sempre existiram conflitos, entre nós. Mas eram atenuados, antes. E isso, parece, está findando. Ruim, muito ruim, sobretudo porque a polaridade nas posições reduz a coesão social. Só para lembrar, no conto O Alienista, Machado de Assis relata que Simão Bacarmate internou 4/5 da população de Itaguaí em seu hospital psiquiátrico. Até que ele próprio ficou preso, por lá.  Não queremos isso.

Intransigentes com os diferentes, nos últimos tempos somos generosos só com quem pensa como nós. Nesses, perdoamos tudo. Até apropriação do patrimônio público. Corrupção. Com todas as letras. Já não é possível esconder o grau assustador de saque ao Estado. Para fins eleitorais e, também, privados. Odebrecht, OAS, Friboi, por aí. Todos sabem disso. Embora nem todos deem a mesma importância ao fato. Alguns até acham isso Pop. Agem como se fossem parte de seitas – aproveitando a frase da carta de Palocci, nessa terça. Há os que se comportam como se ideologia fosse mais relevante. Sinto gana de acompanhar Jorge Amado e dizer que A ideologia é uma merda. Mas não vou tão longe. Certo é que esses perdoam tanta corrupção, docemente, como se fosse algo natural a nosso modelo político. E não é. Ou não deveria ser.

O jornalista Artur Xexéo (em O Globo) desabafa: Gente que dividia comigo a mesma ideologia hoje se comporta como inimigo. Ou sou eu o inimigo? O radicalismo se espraia. Pessoas que deveriam ser consideradas acima do bem e do mal são desqualificadas. Irmãos. Conhecidos. Ídolos do passado. Cada um de nós é capaz de contar, recentemente, quantos amigos perdeu? E só por terem opiniões diferentes das nossas. Já não se consegue argumentar. É como se algum consenso prévio, em relação a crenças ou mitos, não permitisse isso. Uma espécie de catarse. De lavagem cerebral.

Num pequeno poema (Em nome da amizade), Marcelo Mário de Melo descreve a situação que o país agora vive. Lamentando ver Em caminhos contrários/ Antigos companheiros/ De jornadas comuns/ Em sonho e sangue. E Chico de Assis, outro antigo companheiro na luta pela reconstrução da democracia, em livro escrito quando cumpria pena (Cárceres da Memória), ensina que Construir pontes/ É abrir passagem/ Entre o momento/ E o tempo.

Em artigo na revista portuguesa Visão, daqui de Portugal, Miguel de Souza Tavares chama atenção para o fato de que o Estado de Direito é uma contrariedade contra a ditadura populista disfarçada de democracia. Há um rio que separa os brasileiros. Esse rio passou em nossas vidas e suas margens não unem mais. Agora separam. Há dois Brasis que não se falam. Passamos a odiar quem pensa diferente de nós. É de ódio que falo, meus senhores. Tudo hoje se dissolve, como gelatina. Misturado em um discurso de rancores. Quase todas as nossas ilusões de antes se revelaram vãs ou perdidas. Por tudo, então, é preciso remar ao contrário desse rio. Logo. Antes que percamos nossas almas.

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