EDITORIAL » Uma carta demolidora

Publicação: 29/09/2017 03:00

Demolidora a carta do ex-ministro Antonio Palocci — governos Lula e Dilma — endereçada à presidente do Partido dos Trabalhadores, Gleisi Hoffmann, também ré na Operação Lava-Jato, em que pede seu desligamento da agremiação política. Além de confirmar as gravíssimas acusações contra os dois ex-presidentes feitas ao juiz Sérgio Moro, Palocci, outrora um dos petistas mais poderosos, questiona o papel dos dirigentes do PT perguntando se a sigla é comandada “por pessoas de carne e osso ou por uma seita guiada por uma pretensa divindade”, numa clara alusão ao metalúrgico que ocupou por oito anos o cargo mais elevado da nação.

Como era de se esperar, depois do depoimento espontâneo de Palocci ao condutor da Lava-Jato, no início de setembro, o comando do PT tratou de tomar medidas para processar internamente seu detrator. Diante da reação da cúpula partidária, o ex-ministro não teve alternativa a não ser pedir seu desligamento. Ele vem negociando com o Ministério Público Federal (MPF) sua delação premiada, o que, por si só, faz tremer as bases do lulopetismo um ano antes das eleições presidenciais.

Na carta, o ex-todo-poderoso nas administrações petistas estranha que a direção petista tomou a iniciativa de processá-lo pelas denúncias contra seu antigo chefe Lula, e não por sua condenação pela Justiça Federal de Curitiba. Passa a declarar, então, como verdadeiras as acusações já feitas a Sérgio Moro, como a de arrecadação de fundos para a campanha de Dilma à Presidência da República, em 2010, por meio do superfaturamento de sondas da Petrobras. Confirmou, também, o repasse de R$ 300 milhões da empresa Odebrecht ao PT, destinados à atividade política do partido, à doação do terreno para o Instituto Lula e ao sítio de Atibaia para o lazer da família do ex-presidente.

Palocci afirma com todas as letras que esses fatos foram por ele presenciados, acompanhados e até coordenados, muitas vezes, na presença ou a pedido de Lula. Para ele, falar a verdade, no momento de crise enfrentada pelo país, é o melhor caminho e sugere que todos os envolvidos em denúncias de corrupção sigam o seu exemplo. Acredita que é preciso avançar na abertura da caixa-preta dos partidos e dos governos para que a nação seja passada a limpo, “para o bem do futuro do país. Sei dos erros e das ilegalidades que cometi e assumo minhas responsabilidades”, destacou.

No documento, diz ainda que não pode deixar de destacar o “choque de ter visto Lula sucumbir ao pior da política no melhor dos momentos de seu governo”. E passa a citar os êxitos da administração petista com a ressalva de que o ex-presidente passou a navegar “no terreno pantanoso do sucesso sem crítica, do 'tudo pode', do poder sem limites, onde a corrupção, os desvios, as disfunções que se acumulam são apenas detalhes”. Também tece críticas ao PT por ter reeleito Dilma e aos equívocos na condução da política econômica.

A questão que se coloca de pronto é se o PT atenderá ao conselho de seu ex-integrante no sentido de aproveitar a oportunidade para fazer autocrítica de sua conduta desde a revelação do esquema de corrupção do mensalão e, posteriormente, da Lava-Jato. Inquestionável é que a cada dia as acusações contra Lula se avolumam. Principalmente quando sua defesa apresenta recibos com datas inexistentes para comprovar o pagamento de aluguel de um apartamento vizinho ao seu e supostamente doado pela Odebrecht. O certo é que muito ainda virá à tona nos escândalos de corrupção que assolam o Brasil.

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