O Brasil e a crise norte-coreana

Reis Friede
Desembargador federal, professor emérito da Escola de Comando e Estado-Maior do Exército (ECEME) e professor honoris causa da Escola de Comando e Estado-Maior da Aeronáutica (ECEMAR).

Publicação: 28/09/2017 03:00

O líder norte-coreano Kim Jong-Un afirmou que está considerando um ataque de mísseis à Ilha de Guam, horas depois de Donald Trump ter ameaçado a Coreia do Norte com o uso de força militar.

As raízes históricas do problema epigrafado remontam ao início da década de 1950, quando o presidente Harry Truman não incluiu a Coreia do Sul na zona de defesa prioritária dos EUA. Porém, isso não quer dizer que não haja solução para a crise. De fato, muito ainda pode ser feito pelos EUA a respeito do tema, mas, certamente, com muito mais efetividade e sinergia, através de parcerias estratégicas.

Nesse sentido, é fundamental reconhecer que Vladimir Putin e Xi Jinping são parte da solução e não propriamente do problema. Ambos, assim como o premier japonês Shinzo Abe e o presidente sul-coreano Moon Jae-In igualmente se constituem em aliados fundamentais para um desfecho da atual crise.

De fato, é correto assumir que, no caso da Coreia do Norte, uma aliança estratégica integrada por EUA, China e Rússia, se faz (pragmaticamente) necessária para, em um primeiro momento, neutralizar o poderio norte-coreano, que se encontra ancorado em frágeis alicerces econômicos e militares.

Destarte, o caminho lógico seria a aplicação de um embargo econômico, que sufocaria a frágil economia daquele país, lembrando que tanto ogivas nucleares como mísseis balísticos possuem altíssimos custos de manutenção.

Ocorre que, de todos os países do mundo, com toda a certeza o Brasil é um dos mais qualificados a auxiliar na costura de tal aliança. O Brasil possui excelentes relações diplomáticas com todas partes envolvidas diretamente na crise, incluindo a própria Coreia do Norte, o que não é, convenhamos, pouca coisa.

Note-se que o Brasil recebeu uma Embaixada norte-coreana em 2005 e, em 2009, instalou a Embaixada brasileira em Pyongyang, sendo o único país latino-americano com Embaixadas residentes nas duas Coreias. Ainda, em mais de uma oportunidade, o Brasil manifestou-se pública e oficialmente, conclamando a Coreia do Norte a cumprir plenamente todas as resoluções do Conselho de Segurança da ONU, mas sem deixar de reconhecer a autoridade legítima do governo, o que o situa como um dos pouquíssimos países absolutamente neutros e desprovidos de qualquer interesse, senão o da paz mundial.

Além disso, o Brasil participou com extraordinário sucesso em mais de 50 operações de paz, com especial destaque para a Missão das Nações Unidas para Estabilização do Haiti. Estamos, portanto, sendo chamados à arena e não podemos nos recusar a desempenhar este papel histórico que o mundo nos reservou e espera (sinceramente) que venhamos, definitivamente, ocupar.

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