Pe. Airton Freire e a virtude da prudência

Lucas Santos Jatobá
Supervisor jurídico no TRF-5ª Região. Pós-graduado em Direito Penal.

Publicação: 28/09/2017 03:00

É sempre um privilégio ouvir o presidente da Fundação Terra dos Servos de Deus, criada há 34 anos, em Arcoverde-PE. Realizada no Teatro RioMar, no Recife, sobre a virtude cardeal da prudência, a palestra reuniu, em junho, centenas de espectadores. Erudição e simplicidade marcam os escritos, as conferências e, acima de tudo, a vida desse servo da verdade e da caridade, daí o seu valor humanístico, reconhecido junto às milhares de pessoas que acompanham, divulgam e que colaboram ou são assistidas pelos projetos de imensuráveis dimensões sociais e inclusivas, através de obras evangelizadoras e assistenciais, por meio de escolas e creches, cursos profissionalizantes, abrigos para idosos, crianças e adolescentes em situação de vulnerabilidade, além de atendimento médico, social e espiritual, incluindo reabilitação para deficientes e dependentes químicos. Após ministrar palestras sobre as virtudes teologais – fé, esperança e caridade –, Pe. Airton abriu ciclo de encontros para debater a importância de cultivar, hoje, as virtudes cardeais (bússola), também havidas como humanas ou adquiridas, por servirem à relação da humanidade entre si, a saber: fortaleza, temperança, prudência e justiça.

Desde a Antiguidade, filósofos gregos – Aristóteles e Platão – e romanos – Cícero e Sêneca – se debruçaram acerca desse palpitante e atemporal tema, assim como Santo Agostinho e outros. Na Idade Média, o magistério da Igreja soube incorporá-lo, sistematicamente, à doutrina cristã, com o genial concurso de São Tomás de Aquino (‘Suma Teológica’). Dante Alighieri, em ‘A Divina Comédia’, concebeu a prudência como uma dama, de três olhos, guiando as demais musas cardeais, trajando vestido de cor púrpura e dançando em volta de belíssima procissão – simbolizando a fé – de intensa claridade, de bem-aventurados espíritos de anciãos vestidos de branco (Purg., Canto XXIX). O Catecismo da Igreja Católica trata da prudência como sendo ‘a virtude que dispõe a razão prática a discernir, em qualquer circunstância, nosso verdadeiro bem e a escolher os meios adequados para realizá-lo; conduz as outras virtudes, indicando-lhes a regra e a medida; guia, imediatamente, o juízo da consciência’ (n.1806). Pe. Airton realçou não ser esta virtude sinônimo de covardia, medo ou inação; ao contrário, de firme deliberação em agir de forma conscienciosa, a partir da valoração das particularidades de cada situação, da observação dos ‘sinais dos tempos’, sabido, como enfatizou, ser o imediatismo a medida corrente, e que a inconstância ou fluidez nada concretizarão, positivamente, como observamos em nosso presente – global e individual – de incertezas e instabilidades superlativas, próprias de um tempo de oscilante tolerância, cabendo ao prudente perceber que de nenhum ponto ou ângulo de visão, em separado, serão as situações e problemas apreciados em sua totalidade, cabendo preservar o sentido da complementaridade. A prudência guia o juízo da consciência, agindo sobre o intelecto, em busca do justo meio de resolver os impasses e enfrentar os desafios; ela prevê para prover. Salientou o palestrante acerca da necessidade de o cristão prudente conservar o seu legado pessoal de valores e fundamentos éticos inegociáveis, para que, impensadamente, não vejam contrariados seus princípios reguladores apenas por falta de discernimento minimamente exigível na ocasião, eclipsado pelas circunstâncias erroneamente subestimadas. Mas, os erros servirão, pois integrados ao legado de vida e, por amor à vida – expressão corrente em Pe. Airton – balizarão novos caminhos sem queda.

Como na alegoria de Dante, e nos ensinamentos de Pe. Airton, orienta-se o prudente pela memória (legado), pelo entendimento do presente e pela previsão do futuro, refletindo sobre o agir ideal, mantendo-se firme – perseverança – na condução dos bons propósitos. Palavras benfazejas do Pe. Airton Freire: “É necessário ter a ousadia dos profetas, o ardor dos santos e a motivação dos mártires para fazer jus a um legado que para nós custou tão caro; ser prudente para não estragar o que até então conseguimos, para superar o inesperado, não cair por seus próprios pés, evitar o revés e, por amor à vida, não viver à revelia da razão”.

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