Além das fronteiras

Fanuel Melo Paes Barreto
Professor de Língua Portuguesa e Linguística/Unicap

Publicação: 27/09/2017 03:00

Houve um tempo em que os linguistas ansiavam por demarcar os limites de sua disciplina com o maior rigor possível, pretendendo, assim, legitimá-la enquanto ciência. Tal anseio pareceria impróprio no atual clima de franca interdisciplinaridade, sobretudo quando se leva em conta o caráter multifacetado da linguagem humana. Basta mencionar alguns campos da ciência linguística contemporânea para deixar clara a variedade de interfaces que o fenômeno apresenta: psicolinguística, sociolinguística, geolinguística, biolinguística. Além dessas interpenetrações, digamos naturais, entre os estudos da linguagem e outras áreas de investigação, a história das ideias registra casos de contatos interdisciplinares no mínimo curiosos, como os apresentados a seguir.

Entre os antigos gregos, a análise da fala humana levou à depreensão de unidades últimas de som que correspondiam às letras do alfabeto e não se prestavam mais a ser analisadas individualmente. Platão fazia uso da distinção entre “syllabé” e “stoikheîon”, isto é, entre “sílaba” e “elemento”. A certa altura do diálogo Teeteto, Sócrates aparece explicando que, enquanto a primeira sílaba de seu nome permitia ser dividida em elementos, “s” e “o”, tais elementos, por sua vez, não admitiam divisão. O interessante é notar que, como tal modelo de análise era análogo ao que a física grega empregava para explicar a constituição da matéria em componentes últimos, indivisíveis, o termo “stoikheîon” passou a ser usado também nessa segunda acepção. Temos, assim, “um exemplo notável”, comenta o linguista Peter Matthews, “de uma noção originalmente linguística se estendendo para um campo bem mais amplo”. Acrescente-se que a extensão no uso do termo o fez aplicável ainda à geometria, para designar as provas primitivas de uma demonstração; daí o título Stoikheîa, ou seja, Elementos, em obras como a de Euclides.

Um segundo caso, mais recente, é apresentado por Stephen Alter em Darwinism and the linguistic image (1999). Nesse livro, o historiador procura investigar como a biologia evolucionista, em seus momentos iniciais, no século XIX, se valeu do modelo genealógico engendrado por uma também incipiente linguística histórico-comparativa. Tal modelo descrevia as relações existentes entre as línguas e representava o processo de diversificação da linguagem humana. Não parece, contudo, ser este um caso, como querem alguns, de influência direta sobre a atividade de construção teórica; as exaustivas observações biogeográficas foram certamente o fator decisivo na formulação da “perigosa ideia de Darwin”, para usar a expressão do filósofo Daniel Dennett. No entanto, em seus escritos, Charles Darwin faz, frequentemente, referências analógicas ao processo de variação e diversificação das línguas, como uma forma de esclarecer e justificar o conceito de “transmutação” das espécies pela seleção natural. Alter sugere que as imagens genealógicas tão características dos estudos linguísticos da época contribuíram para a aceitação da tese darwiniana, “aumentando seu peso e plausibilidade intelectuais”.

Os dois casos aqui considerados mostram como os contatos entre as disciplinas científicas podem ocorrer mesmo quando não há, ou ainda não se percebe, uma clara relação entre os diversos objetos de estudo. O olhar largo, de longo alcance, para além das fronteiras teóricas convencionais, não só constitui um móvel de dinamização da investigação em uma disciplina particular, como tem inclusive possibilitado a integração (ou “unificação”) entre duas ou mais disciplinas, a exemplo do que aconteceu com a química e a física, ou a biologia e a química. Até onde chegam as relações entre a linguagem e os outros aspectos da realidade humana, ou mesmo física? Até onde irão os contatos entre a linguística e os outros ramos da ciência?

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