Xico, futebol e literatura

Luzilá Gonçalves Ferreira
Doutora em Letras pela Universidade de Paris VII e membro da Academia Pernambucana de Letras

Publicação: 26/09/2017 03:00

Foi um belo encontro de amantes do futebol, artistas, escritores reais ou postulantes, em torno de Xico Sá, quinta-feira passada, na Fenelivros. Contista, jornalista, cronista, Xico esbanjou simpatia, simplicidade e saber, em torno do futebol, em torno da literatura, duas de suas paixões, e naquela noite lançava seu ultimo livro, Big Jato (de crônicas deliciosas, quase autobiográficas), edição da Companhia das Letras. Auditório cheio, gente jovem e menos jovem, vinda para ouvir o sertanejo que nunca perdeu o orgulho de ter nascido no Cariri. E que brilha na imprensa e na televisão nacionais. Lembrando Paulo Mendes Campos e Nelson Rodrigues, Xico concordou com os que lamentaram que as crônicas sobre futebol tenham perdido em parte a poesia dos relatos, a emoção que vibra sempre nos estádios repletos, e venha se especializando em comentar técnica e assuntos mais alheios à verdadeira paixão pelo esporte. A melhor parte da palestra de Xico – e, claro estou puxando brasa para minha sardinha – foi a confissão implícita de seu grande amor e conhecimento de literaturas, sobretudo brasileira,  de que aliás já sabíamos. Para um ouvinte que dizia querer ser escritor. Xico recomendou o que todos nós professores ou autores, aconselhamos: seja um grande leitor, leia, leia, leia. Comentou sua descoberta, ainda adolescente, de Graciliano Ramos, seu estilo enxuto, seco, e citou a morte do papagaio (eu esperava que lembrasse a morte da cachorra Baleia em seu céu cheio de preás) como um exemplo que o comoveu, e que o autor de Vidas Secas anuncia como “o mundo coberto de penas”. E enfatizando a ação libertadora da literatura sobre o leitor, mesmo aquele pouco frequentador de livros, comentou a experiência que tivera, ao participar de um Projeto de Leitura para detentos numa prisão em Minas Gerais. Ao ouvir o relato do preso em seus primeiros contatos com os livros, e como se sentia ao descobrir um mundo novo, da ficção, da poesia, transmitido por palavras, Xico se emocionou. E comentou para nós: aquele homem já estava livre. Agora, um recado: obrigada, Xico, por nos ter transmitido esse seu amor pelas coisas belas. Sucesso para seu novo livro, que a gente lê de um fôlego. Parabéns por sua menininha recém nascida. E por seu aniversário que será na próxima semana. É alegria demais, mas de vez em quando a vida nos surpreende com um acúmulo de felicidade.

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