EDITORIAL » Vitória com sabor amargo

Publicação: 26/09/2017 03:00

Angela Merkel venceu como previram as pesquisas. Mas o resultado não mereceu obas e fogos. Com 33% dos votos, a União Democrata Cristã (CDU), partido da chanceler alemã, amargou oito pontos a menos que em 2013. Perdeu 65 cadeiras no parlamento. O Partido Social Democrata (SPD), tradicional aliado de Merkel, ficou com pouco mais de 20% da preferência popular — o pior resultado na história. O desempenho mais tímido das duas grandes siglas abriu espaço para uma novidade que inquieta não só Berlim mas também a União Europeia (UE).

A Alternativa para a Alemanha (AfD), de direita ultranacionalista, obteve 13% dos sufrágios. Trata-se de fato inédito. Desde o fim da Segunda Guerra Mundial, em 1945, candidatos com discurso furiosamente xenófobo não ocupavam assentos no Legislativo. São 95 eleitos cujas teses pesarão na agenda política. Uma delas: bandeira contra imigrantes e anti-islã. A rejeição intransigente à política pró-imigração tem forte apelo preconceituoso. Graças à abertura da fronteira alemã, o país recebeu, em 2015 e 2016, 1,5 milhão de refugiados sobretudo muçulmanos.

A Alemanha acolhe 18,5 milhões de habitantes de origem estrangeira. Com a população envelhecida, a mão de obra vinda de fora, além de necessária para a economia, é social e moralmente merecedora de aplauso. A chanceler deu exemplo de acolhimento humanitário para as nações resistentes aos adultos e crianças que, na fuga contra a guerra e a fome, arriscaram a vida para chegar ao solo europeu. Pagou por isso.

À frente do governo desde 2005, Angela Merkel é a decana da União Europeia. As causas que abraçou lhe renderam o epíteto de líder do mundo livre. Entre elas, o acordo do clima, a luta pela permanência da Grécia na UE, a recuperação da eurozona, que cresce há 17 semestres consecutivos. A Alemanha registrou avanços significativos — elevação de 1,9% do Produto Interno Bruto (PIB) e queda do desemprego para 3,6%, o índice mais baixo desde 1980.

Embora seja a terceira força do Parlamento alemão, a AfD dificilmente comporá o time de comando até 2021. A promessa é de Merkel, que deverá formar coalizão com os liberais e os verdes. É promessa também levar os direitistas a mudar de lado. Para tanto, precisa convencê-los de que a imigração é boa para o país. Espera-se que, caso o argumento fracasse, ela não adote posição anti-imigrantes. Seria retrocesso impedir a permanência dos recém-chegados, a maioria dos quais espera a legalização da permanência na nação europeia.

A extrema direita venceu nos Estados Unidos. Mas sofreu fragorosa derrota na França e na Holanda. Na Alemanha, como partiu do zero, chegar a quase uma centena de representantes tem gosto de vitória. Reduzir a força da agremiação, que traz de volta ao século 21 o fantasma autoritário que devastou a Europa em passado recente, é desafio de Merkel nos próximos quatro anos — talvez o último mandato da mandatária que transmite a sensação de estabilidade para os cinco continentes.

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