Jovens que votam em Bolsonaro e jovens que votam em Merkel

Maurício Rands
Advogado, PhD pela Universidade Oxford

Publicação: 25/09/2017 03:00

A exaltação nas redes sociais favorece os extremos. Os quase 20% de Bolsonaro são um aviso. As manifestações de apoio ao general Mourão são outro. É fato que são os mais jovens, sobretudo os moradores dos bairros periféricos, os que mais expressam sua justa ira nas redes sociais. Mas também nas ruas. Como ficou demonstrado nas manifestações de julho de 2013, que talvez não tenham sido compreendidas em plenitude pelas atores políticos tradicionais. Em todos os espectros ideológicos, o sentimento é de uma profunda indignação social com a persistência da desigualdade, da pobreza, da corrupção e da violência. Daí resulta um descolamento da adesão à democracia. Como verificou o Informe 2016 do Latinobarometro (http://www.latinobarometro.org/latNewsShow.jsp), ao mostrar que pelo quarto ano consecutivo o apoio à democracia na América Latina não melhorou. Tendo chegado a 54% em 2016, registrou-se uma baixa de dois pontos em relação a 2015.

Sabe-se que os jovens tendem a opções mais afirmativas. Comumente inclinam-se à opções progressistas, como fizeram com Bernie Sanders no Partido Democrata nos EUA e Jeremy Corbyin no Partido Trabalhista Britânico. O culto à juventude é compreensível. Trata-se de mito perseguido pela humanidade desde priscas eras. Mas vai perdendo o sentido quando já se cogita que o ciclo de vida se estenda aos 150 anos, com algumas pesquisas flertando com a ideia da “amortalidade” (só morreríamos por causas externas, como os acidentes). Por isso, as eleições tendem a sofrer menos impulsos dos mais jovens, crescendo a voz das pessoas mais maduras. Isso não significa que posições ideológicas nítidas vão desaparecer. Mas precisarão ser melhor fundamentadas, com atenção às nuances e complexidades de uma realidade que insiste em não se adequar às interpretações maniqueístas.

Na Alemanha o eleitorado com mais idade é bem maior do que em nosso continente. Foi quem reelegeu Angela Merkel.  Apenas 15,4% têm entre 18 e 30 anos, contra 20% entre 50 e 60 anos. Mas, surpreendentemente, muitos jovens votaram num partido moderado de centro, a Democracia Cristã de Angela Merkel. Como declarou Philipp Thiel, 27 anos, ao Washington Post (23-9-17): “Não espero uma terceira guerra mundial, mas algo parecido pode acontecer com gente como Trump, Putin, Kim Jong-un. Então Angela aparece como alguém que vai dizer a eles para se acalmarem”.
O que faz a diferença entre jovens latino-americanos e alemães? Por que uns flertam com o extremismo racista de Bolsonaro enquanto outros votam em  ngela Merkel e sua política de abertura aos milhões de refugiados? Mesmo quando o partido dela tem pouca intimidade com algumas das causas que lhes são caras como a liberação dos costumes e a ambiental? Fenômenos complexos raramente têm causas únicas e nítidas. Mas talvez valha começar por duas hipóteses. A primeira é o abismo educacional entre os dois grupos. Quanto mais informadas e educadas as pessoas, mais terão acesso a experiências e estudos que mostram as ditaduras aprofundando a desigualdade, a corrupção e a violência, talvez as principais fontes da exasperação niilista que dá eco a gente como Bolsonaro e Mourão. A segunda é o abismo institucional existente entre a incipiente democracia da América Latina e a consolidada na Alemanha do pós-guerra. Sim, porque o bom funcionamento das instituições não é campo fértil para os atalhos autoritários. É a falta de resposta da democracia aos seus anseios que leva tanta gente a menosprezar a democracia como um valor universal.  

P.S: Quero registrar o equilíbrio das articulações do ministro da Defesa, Raul Jungmann, que redundaram na declaração do comandante do Exército, general Villas Boas, reafirmando o compromisso democrático da instituição. Ambos tiveram o cuidado de não transformar o general Mourão em um mártir, como ele pretendia.

Os comentários abaixo não representam a opinião do jornal Diario de Pernambuco; a responsabilidade é do autor da mensagem.