EDITORIAL » Nau dos insensatos

Publicação: 25/09/2017 03:00

Desde a abertura da 72ª Assembleia Geral das Nações Unidas, no início da semana, o mundo assiste a um duelo de oratória entre Estados Unidos e Coreia do Norte, com o recurso a termos e ameaças como nunca se viram no âmbito da organização que, com todos os senões, pôde evitar por sete décadas que o mundo voltasse a enfrentar uma guerra de escala global. Não são poucos os que pensam, hoje, que aquilo que parecia impensável até bem pouco tempo agora soe como uma preocupação realista — a de que se repita o horror testemunhado em 1945 em Hiroshima e Nagasaki, bombardeadas com artefatos atômicos, em 1945, para forçar a rendição do Japão na Segunda Guerra Mundial.

O tiroteio verbal entre Washington e Pyongyang chama a atenção, entre outros motivos, por ser travado, simultaneamente, no mais alto e no mais baixo nível. No que diz respeito à primeira categoria, trata-se da troca de insultos entre chefes de Estado — o patamar mais elevado possível. Quanto ao segundo ponto, as ofensas se sucedem desde a terça-feira.

Poderia parecer suficientemente belicoso que um chefe de Estado — Trump no caso —, tanto mais o que comanda a potência militar hegemônica no globo, fale em “destruir totalmente” um outro país-membro da ONU. Não mais do que dois dias depois, o líder norte-coreano promete reduzir os EUA “a dor e cinzas”.

Observadores, analistas e auxiliares de ambas as partes empenham-se em relativizar o tom das ameaças trocadas, antes que seja tarde. Mas o fato é que, no atual quadro, é preocupante que os governantes de duas potências nucleares — uma delas, os EUA, o único país que já lançou mão de artefatos atômicos contra alvos reais — troquem ameaças em termos que lembram os duelos de bravatas entre colegiais que ingressam na adolescência.

Os últimos movimentos do duelo parecem caracterizar do que se trata o confronto entre dois novatos da política global que se sentem encorajados pelos próprios poderes bélicos. De um lado, Donald Trump, formado na selva quase sem lei do mercado imobiliário americano. Do outro, Kim Jong-un, nome da terceira geração de uma “dinastia” construída sobre a noção de que é preciso, antes de tudo, ser capaz de sobreviver militarmente ao “império americano”.

Precedentes como o da “crise dos mísseis”, de 1962, em que os EUA e a hoje extinta União Soviética flertaram por duas semanas com a aniquilação recíproca, ensinaram sobre a imperiosidade de que as superpotências tenham a distensão como centro de sua política. Nesse intervalo, o que mudou foi o cenário visível de ambos os lados do impasse.

Se, há meio século, tínhamos um duelo entre John F. Kennedy e Nikita Kruchev, com Fidel Castro entre os dois, hoje a disputa é travada entre Donald Trump, um empresário sem qualquer experiência política, e Kim Jong-un, que apenas se aproxima dos 40 anos e tem como escola apenas as lutas internas do regime comunista norte-coreano. Ao resto do mundo, resta fazer votos para que prevaleça a razão — de algum tipo que seja.

Os comentários abaixo não representam a opinião do jornal Diario de Pernambuco; a responsabilidade é do autor da mensagem.