O sonho de Lula

Luzilá Gonçalves Ferreira
Doutora em Letras pela Universidade de Paris VII e membro da Academia Pernambucana de Letras

Publicação: 12/09/2017 03:00

Para mudar o mundo, sei bem, é preciso sonhar acordado. Apenas os que desistiram guardam o sonho para o tempo de dormir. E mais: quem se desilude morre por dentro. Essas palavras de Valter Hugo Mãe, que esteve no Recife há uns anos, participando da Fliporto, poderiam ser assinadas por um outro grande artista, o nosso Lula Queiroga, que acaba de lançar o disco Aumenta o sonho. Em entrevista a este jornal, o cantor e compositor comenta a trajetória desse novo trabalho, iniciado em 2013, quando nosso contexto político era bem outro (ai de nós). O artista queria falar daqueles ideais que alimentam e dão sentido à vida daqueles que não desistiram. E lembra, simplesmente: quando você acredita em alguma coisa, vai atrás, dobra o sonho e faz ele crescer. Mas confessa que os acontecimentos de ordem política e social o afetaram muito: “Quando percebi, a gente já estava vivendo uma outra realidade. Queria mudar, fazer outra coisa.” Não recordo o nome de quem disse mais ou menos isto: se você dá um passo, já não está mais no mesmo lugar. Mas Lula vai além: “Se você sobe um único degrau na caminhada já está aumentando o sonho. É disso que fala o disco: do sonho pueril de uma criança que sonha em ser livre.” E a gente até ousa corrigir Lula, e acrescentar que por esse “sonho pueril”, pessoas deram a vida: “I have a dream”, afirmava Martin Luther King. Por esse sonho outro grande homem, um presidente chileno deu a vida, num 11 de setembro como este. Neste novo disco, que se esmera pelo conceito gráfico, no cuidado com a execução musical, e em parceria com artistas como Lenine, Lucky Luciano, Yuri Queiroga, Fabricio Belo, entre outros,  paira a exigência do bem dizer, do bem fazer, o protesto contra a maldade de alguns (“Eu não sou seu camarada, nunca serei conivente”), uma certa nostalgia e a urgência de se buscar a beleza. Lula, a gente te agradece.

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