EDITORIAL » O difícil caminho da paz

Publicação: 12/09/2017 03:00

São bem-vindos os novos ventos que sopram na Colômbia. Depois de mais de cinco décadas de confrontos entre forças do governo, guerrilhas e grupos paramilitares, as notícias de avanços no processo de paz acendem a esperança de que finalmente as armas darão a vez ao diálogo e às negociações.

Em 2016 — depois de 53 anos de conflitos e 220 mil cadáveres —, o país assinou histórico acordo com as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc). Tratava-se da maior guerrilha latino-americana, que se notabilizou por sequestros, homicídios e disseminação do medo e da insegurança no território da nação vizinha. Com a desmobilização, o grupo se transformou em partido político.

Dado o primeiro passo, chegou a vez do segundo. O Estado acaba de assinar cessar-fogo bilateral com o Exército de Libertação Nacional (ELN). O acerto com o último grupo guerrilheiro em atuação no país está longe de bater ponto final nas hostilidades. A trégua definitiva — com o abandono dos atos criminosos e a entrega das armas — exige pacto que inclui anistia parcial, representação política e auxílio para a reinserção dos guerrilheiros.

São concessões que encontram forte resistência. De um lado, há desconfiança das partes. Os atores envolvidos não confiam em quem está do lado oposto da mesa. De outro, a sociedade considera as concessões generosas demais para quem trouxe tanto sofrimento à população. Vale lembrar que, pelas mesmas razões, os colombianos rejeitaram o primeiro plebiscito que confirmava a paz com as Farc.

As feridas precisam ser cicatrizadas. Uma das missões do papa Francisco ao visitar a Colômbia foi dar apoio ao espinhoso processo de aproximar a sociedade e a classe política. Ambas exibem divisões anteriores — nos ensaios para levar as Farc a fazer parte do processo democrático. Na quinta, ao falar para fiéis em Bogotá, o pontífice ressaltou que “a busca da paz é trabalho contínuo e sempre em aberto. É preciso deixar de lado os sentimentos de curto prazo, como o de vingança”.

O apelo talvez ressoe. Segundo as estatísticas, a grande maioria dos colombianos é católica — 45 milhões dos 49 milhões de habitantes receberam o batismo. Se há um canal legítimo para defesa de teses e embate de ideias, nada mais lógico do que recorrer a ele — entrar no Parlamento pela porta da frente. A pauta está em andamento. O conflito da nação colombiana entre a arma e o diálogo lembra frase de Georges Clemenceau (1841-1929). “É mais fácil”, escreveu o estadista francês, “fazer a guerra do que a paz”. Que se tome o caminho mais difícil.

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