Retrocessos socioeducacionais

Paulo Rubem Santiago
Professor e mestrando em Educação na UFPE

Publicação: 09/09/2017 03:00

Não estávamos num deserto educacional em busca de um oásis pedagógico. De 2010 a 2014 debatemos intensamente os rumos da educação brasileira, das creches à pós-graduação. Ouvimos todo mundo, definindo metas e estratégias. Agora vem o governo Temer e nos impõe um desacerto atrás do outro. O primeiro, retrocedendo oitenta e cinco anos no direito à educação para todos (a 1932, ano do Manifesto dos Pioneiros da Educação), foi a “reforma” do ensino médio que de nada servirá para as classes médias e a média alta, que manterão seus filhos estudando até o final desse período, cursando todas as disciplinas ou áreas, para levá-los em seguida às universidades. Já os mais pobres, porém, pelo contrário, em nome das “escolhas curriculares” que serão estimulados a fazer, migrarão para cursos técnicos ligeiros, com promessas de um emprego nem sempre disponível de imediato, com poucas chances de progressão na vida, dada a baixa escolaridade e a insuficiência posterior de formação, perpetuando-se a desigualdade de hoje. Ou será que o milagroso empreendedorismo os salvará disso? Em segundo lugar vieram os irresponsáveis gastos dos nossos impostos financiando publicidade a favor da tal “reforma”, afirmando-a “aprovada” por 72% dos alunos. Como, se não houve debate nem desse nem de outro modelo, tendo sido essa “reforma” imposta de goela abaixo? Agora, no terceiro desacerto, se anuncia que o ensino médio será abordado por “áreas” e não mais por disciplinas. As escolas é que irão decidir como trabalhar isso. Já imaginaram? Cada uma de milhares de unidades de ensino das 27 redes estaduais escolhendo trabalhar de um jeito?  Haja fragmentação e risco de disciplinas essenciais na formação dos educandos serem retiradas das “áreas” em nome das exigências do mercado de trabalho. Mas de que mercado eles estão falando? Do urbano e metropolitano industrial em queda livre? Do rural primário e de subsistência? Ou do mercado quase metade da economia informal? Essa reforma é um retrocesso pedagógico e social. No campo e na cidade vai ampliar a segregação e a desigualdade econômica contra os mais pobres, que com o Fundo para a Educação Básica, o Fundeb, desde 2006, e a expansão das universidades públicas, e também privadas, via Prouni e Fies, tiveram ampliados os acessos ao ensino médio e à educação superior, depois de décadas de acentuada exclusão.Dos jovens brasileiros entre 15 e 17 anos , 9,6% ainda estavam  no Ensino Fundamental; 54,3%  no Médio; 1,7% na Educação de Jovens e Adultos (EJA); 0,3% faziam pré-vestibular; 15,7% não estudavam e não concluíram o Ensino Médio ( IBGE,2013).

Os ministros de Temer, ele próprio, não entendem nada do conteúdo nem do que é republicano nas pastas para as quais foram nomeados. São agentes de grupos privados e de modismos. Não se resolve emprego e renda de jovens com restritivas escolhas curriculares, nem hoje nem amanhã, ainda que se retome o crescimento do PIB, posto que a renda do trabalho de baixa qualificação jamais ampliará sua participação na riqueza nacional. Nunca se viu governo tão medíocre e covarde contra sua própria gente em tão pouco tempo. Nos países com altos índices de desenvolvimento humano prevaleceram o aumento da escolaridade de seu povo e o acesso ao ensino superior de forma crescente. Aqui, a regra agora é tirar os mais pobres da universidade em nome do acesso rápido a cursos técnicos no nível médio, com promessas de emprego, além de cortarem drasticamente as verbas para a educação com a PEC 241/ EC 95, atingindo, sobretudo, a graduação e a pós-graduação como se vê hoje. Um crime contra as atuais e futuras gerações. Basta.

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