EDITORIAL » Por que demonizar a política é um erro

Publicação: 09/09/2017 03:00

Ao criticar a corrupção no Brasil, ontem em palestra no Wilson Center, em Washington (EUA), o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Luís Roberto Barroso fez uma oportuna ressalva. “Não podemos demonizar a política”, disse ele, “nem politizar o crime”. A política é a base da democracia — fora dela não há salvação; há o silêncio forçado das ditaduras. E o crime não pode ser blindado pela ideologia nem por partidos — qualquer que seja a ideologia, quaisquer que sejam os partidos.

No clima de radicalização em que estamos vivendo nos últimos três anos, a paixão de uns e outros tem enveredado pelo caminho de considerar a política como algo intrinsecamente nocivo e as legendas partidárias (consequentemente, também seus integrantes) como feras famintas em volta do butim. Esse tipo de raciocínio acaba levando à imobilidade, em vez de nos impulsionar rumo ao que todos desejamos: a transformação da realidade.

Sem citar nomes, o ministro Barroso deu exemplos de modificações positivas implantadas no país por intermédio da política. “Há 40 anos, discutíamos na escola de Direito como combater a tortura durante o regime militar. Hoje discutimos como combater a corrupção e elevar as práticas públicas”, afirmou ele, acrescentando que nesse período o Brasil viveu 30 anos com estabilidade institucional e monetária, inflação sob controle e com medidas que levaram mais de 30 milhões de brasileiros a sair da pobreza. “É muito encorajador que, em uma geração, derrotamos a ditadura, temos democracia e inflação baixa”, enumerou o ministro.

Defender essa tese — contrária à demonização da política, favorável à boa política — não significa, nem de longe, qualquer leniência com a corrupção. Nesse item, a tolerância deve ser zero. Com o detalhe de que assim seja não só em relação à política, mas a todas as outras áreas e também entre nós, como cidadãos. Se desejamos combater a corrupção, precisamos empreender o combate onde quer que ela se apresente.

“É difícil combater o pacto oligárquico entre políticos, empresários e burocratas”, afirmou o ministro Barroso em sua palestra. Segundo ele, o sistema penal costuma ter uma perversa seletividade: pune os pobres, perdoa os poderosos. Esse quadro está mudando — e, percebam, as mudanças estão ocorrendo dentro dos limites da democracia, cuja base é a política. “Uma foto do Brasil pode dar a impressão que o crime compensa, mas não é verdade”, destacou o ministro, referindo-se ao combate que tem sido empreendido contra a corrupção no país. A partir de tudo que vem acontecendo, ele disse estar “convencido que as coisas não serão mais as mesmas”. Partilhamos do otimismo dele. O país que em uma geração consegue superar uma ditadura, consolidar a democracia, controlar a inflação e tirar da pobreza 30 milhões de pessoas, é um país capaz de também vencer a corrupção. E isso pode ser feito sem demonizar a política e sem politizar o crime.

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