Ida ao Senegal e volta às aulas

Marcia Alcoforado
Professora associada do Departamento de Economia/ PIMES/ PPGEC da Universidade Federal de Pernambuco

Publicação: 08/09/2017 03:00

Passei a última semana do recesso da UFPE visitando minha filha que está trabalhando em Dakar, capital do Senegal, no Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (ACNUR). Foi minha primeira visita à África, o continente sobre o qual, desde que li a americana Gail Straub e o seu maravilhoso Volta à casa materna – retomando a sabedoria do feminino, passei a nutrir um desejo inconsciente, mesmo sem planos definidos, de conhecer. Na história pessoal da autora, ela relata a perda da mãe ainda muito jovem nos anos 70, exatamente no período em que era voluntária do Peace Corps e lá trabalhava, mais precisamente em Abidjan, à época capital da Costa do Marfim. É tocante o trecho em que relata “... com o seu generoso coração foi a Mãe África que me serviu de mãe no momento em que perdia a minha” e se pergunta “Será porque ela morreu neste período que mais de 30 anos depois meus anos na África continuam tão vivos na minha memória?”

Dramas pessoais à parte não me restaram dúvidas, depois da visita, de que é mesmo muito difícil esquecer um período em solo africano. A vivacidade, a energia e o calor (le chaud) estão em toda a parte: nas roupas de cores e padrões singulares que as belíssimas mulheres usam, na curiosidade das crianças, no porte dos homens-atletas usando camisas de times do mundo inteiro. Tudo é colorido e nada é preto-e-branco. Desde as roupas até o horizonte que se turva de rosa ao pôr do sol. Dakar fica na península de Cabo Verde, cercada por todos os lados pelo oceano. O país tem a democracia mais consolidada da região, já tendo tido nos seus 50 anos de independência 4 presidentes. A chegada ao aeroporto que é pequeno e completamente caótico, é impactante e vai de encontro ao nosso anseio natural por ordem, disciplina e estrutura. Todos são negros e você se reconhece e é reconhecido como estrangeiro facilmente, mesmo com toda morenice e sem apresentar nenhum traço nórdico. O estranhamento inicial vai cedendo espaço aos poucos, e os preconceitos inerentes a nossa brasilidade vão caindo por terra. A ausência de boas condições materiais não retira a simpatia nem parece aborrecer os senegaleses. A espontaneidade é mágica e absolutamente encantadora e a procura constante pela proximidade, talvez por ser um povo comerciante por natureza, favorece uma interação fácil, sem tensões e sem ultrapassar limites. Há sedução por toda a parte: nos olhares, cadências e sorrisos. A musicalidade e a religiosidade embebem tudo e todos. O Baobá é o símbolo nacional. Maravilhosos monumentos vivos, alguns com mais de 1500 anos simbolizam a sabedoria e o espírito africanos. Vendem-se sementes, o suco é divino e pasmem pode-se entrar em algumas dessas árvores, uma experiência indescritível.

Volto às aulas na semana seguinte. Corro os meus olhos pelas novas turmas e procuro os negros. Encontro muitos olhinhos escuros, curiosos e ávidos por entender o alto índice de reprovação da disciplina, mas os tons de pele são diversos, sendo os que a tem mais escura, poucos. Esses têm sorrisos largos e parecem felizes de estar ali. Têm motivo. O Brasil é o país de maior população negra fora da África e só perde no mundo para a Nigéria. Com uma população deste tamanho, pode-se dizer: ainda temos um sistema de exclusão racial, mesmo que informal. Sendo mais de 50% da nossa população os negros mesmo contabilizados junto aos pardos, ainda são minoria na educação superior e nos postos mais qualificados do mercado de trabalho e maioria na população carcerária. Independente de laços matrilineares e consanguíneos nós brasileiros somos todos, em algum grau, afrodescendentes, pois filhos da história invisível dos mais de 5 milhões de seres humanos que escravizamos e trouxemos pra cá, no talvez maior translado da história humana. Estupidez não incorporar, inútil negar e nocivo desvalorizar toda a força e riqueza dessa presença e ascendência. Nós brasileiros podemos ainda ignorar, mas os africanos sabem: o espírito deles é como o Baobá. Tem grossas e longas raízes, sobrevive em condições desérticas- seu tronco é um reservatório pois pode armazenar 120 mil litros de água – e chega a viver 6 mil anos. 

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