(Re)vendo a reciclagem

Emanuel Sampaio Silva
Professor da Universidade Salgado de Oliveira - Universo

Publicação: 07/09/2017 08:00

Mesmo em plena crise econômica, os brasileiros aumentaram a produção de “lixo”. A geração de resíduos sólidos no Brasil entre 2014 e 2015 saltou de 215 mil toneladas dia para 219 mil toneladas dia. E o preço da limpeza urbana desta sujeira é muito alto, cerca de R$ 10,00 por habitante mês, segundo a ABRELPE /Panorama de Resíduos Sólidos 2015. (Re)ver esta situação é urgente.

Os novos termos estabelecidos pela Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS), Lei Federal nº 12305/2010, sinalizam indicativos para construção de uma nova reciclagem, mas são repletos de desafios. Por exemplo, o lixo foi suprimido do vocabulário técnico, mas ainda está presente no cotidiano. Os resíduos sólidos e rejeitos passaram a compor a nova linguagem e diretriz de atuação, mas a sua prática ainda é tímida. A mudança é grandiosa, lenta, envolvendo a (re)visão do que entendemos por desperdício de dinheiro público, associado usualmente a grandes somas, mas raramente vinculado aos pequenos resíduos descartados individualmente, todo dia.

O desenvolvimento e a adoção de tecnologias específicas representa outra vertente a ser descortinada. Atualmente, os municípios pagam quase R$ 400,00 por tonelada da coleta seletiva, contra R$ 98,00 por tonelada da coleta tradicional, de acordo com o CEMPRE/CICLOSOFT 2016. Logo, soluções para a logística reversa e baseadas em tecnologias sociais que permitam redução de custos são vitais para ampliação da reciclagem e dos  programas de coleta seletiva.

Por fim, a formação de arranjos institucionais virtuosos, envolvendo o setor público e o privado, deve estar aberta a novos agentes. As experiências de cessão de serviços de coleta seletiva às cooperativas de catadores ainda são vistas com ressalvas, apesar do potencial de inclusão social e redução dos custos operacionais para os municípios e as empresas. Ao mesmo tempo, o estabelecimento de uma política de incentivos através de preços mínimos por parte da indústria tenderia a proporcionar maior segurança aos elos mais frágeis da cadeia de reciclagem, diante das oscilações no mercado de commodities.

Decorridos quase sete anos da promulgação da PNRS, ficam evidentes os desafios relacionados às questões culturais, tecnológicas e institucionais. São questões complexas, mas possíveis de serem resolvidas. E a tarefa desta (re)visão tem prazo para começar: hoje.

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