Falar abertamente é melhor do que calar

Eliene Soares
Funcionária pública federal, voluntária da Associação de Apoio e Valorização da Vida (AAVV), mantenedora do CVV Recife.

Publicação: 06/09/2017 03:00

O ano de 2017 foi permeado, até agora, por dois assuntos que fizeram a sociedade brasileira falar abertamente sobre um assunto considerado tabu: o suicídio. A série da Netflix 13 reasons why, ou Treze razões porque, retrata a vida de uma adolescente que se vê diante de tantos problemas, se sente excluída e incompreendida. Não consegue lidar sozinha com a situação e comete suicídio. O desafio da Baleia Azul tem levado jovens do mundo todo, incluindo o Brasil, a cumprir uma sequência de 50 desafios, cujo último é o ato do suicídio.

De repente se viu uma sociedade perplexa e incrédula diante dos fatos e receosa das consequências do filme e do desafio. As famílias pediram ajuda à polícia para barrar o desafio, a imprensa não sabia se criticava ou elogiava a série. Tudo parecia confuso, o mundo “normal” parecia sair dos trilhos. E muito se falou sobre o assunto.

O que a maioria da população não sabe é que, a cada ano, mais de 800 mil pessoas tiram a própria vida, que, na faixa etária entre 15 e 29 anos, o suicídio é a segunda causa de morte (OMS, 2014), o Brasil é o 8º país em números absolutos de suicídios no mundo, a cada 45 minutos um brasileiro morre por suicídio (Ministério da Saúde, 2014). Os dados por si só são alarmantes, dignos de preocupação mundial para o enfrentamento de uma epidemia silenciosa. A boa notícia é que os estudos apontam que 90% dos casos podem ser prevenidos (OMS, 2014).

A população também desconhece que o suicídio é multicausal, não pode ser compreendido somente por uma perspectiva e que devem ser levados em consideração fatores psicológicos, psiquiátricos, econômicos, culturais e religiosos. Porém, em todos os casos, há um padrão de sofrimento, um desespero insuportável que a pessoa não consegue conviver sem ajuda. A pessoa busca ser ouvida e aceita, que seus problemas não sejam negligenciados, minimizados, que seu sofrimento seja compreendido, a aceitação e a compreensão propicia um ambiente favorável para seu autodesenvolvimento.

O Centro de Valorização da Vida (CVV) vem atuando, há 55 anos no Brasil, na prevenção do suicídio, conta hoje com 77 postos de atendimento em 18 estados mais o Distrito Federal e cerca de dois mil voluntários. Realiza mais de um milhão de atendimentos anuais por telefone, e-mail, chat, Skype e pessoalmente. Oferece apoio emocional a quem busca o serviço. O CVV vai além dos atendimentos diários, por 24 horas por dia, todos os dias da semana. Somos um dos mobilizadores do Setembro Amarelo, mês mundial de prevenção do suicídio, desde seu lançamento em 2014. O Setembro Amarelo é uma campanha de conscientização sobre a prevenção do suicídio, com o objetivo direto de alertar a população a respeito da realidade do suicídio no Brasil e no mundo e suas formas de prevenção.

O CVV acredita que falar abertamente sobre o tema é uma forma de desmistificar o tabu e de alertar a sociedade para a gravidade do assunto e para suas formas de prevenção. Por vias transversas, nosso Setembro Amarelo chegou mais cedo.

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