A arte da gramática

Fanuel Melo Paes Barreto
Professor de Língua Portuguesa e Linguística/Unicap

Publicação: 06/09/2017 03:00

“Tais estudos fazem picadinho da mente”. Eis o parecer de Quintiliano, famoso retórico romano do primeiro século de nossa era, a respeito do que via como excessos da análise linguística. A opinião poderia ser endossada por um estudante debruçado sobre as tabelas de formas e listas de regras ainda hoje presentes nos compêndios de gramática da língua portuguesa. Porém, se pensarmos que os estudos gramaticais tiveram sua origem no mesmo ambiente – a Grécia antiga – em que floresceram outras áreas do conhecimento, como a lógica, a geometria, a astronomia, será lícito supor que algum crédito intelectual deva ser reservado à nossa disciplina.

De fato, a tarefa com que se defrontavam os antigos pensadores gregos nas várias frentes de investigação era essencialmente a mesma: oferecer uma explicação racional para os fenômenos da experiência diária. Tão complexa era a tarefa no caso da linguagem que, responsáveis por uma tradição de pensamento independente e em muitos aspectos mais avançada que a dos gregos, os hindus atribuíam a uma deusa, Indra, a primeira análise da fala humana. Mas, entre os gregos, a precedência coube aos filósofos (Platão, Aristóteles, os Estoicos), seguidos pelos filólogos alexandrinos; entre estes últimos é que se definiu a “tekhné grammatiké”, que os romanos adotaram como “ars grammatica”, a “arte da gramática”.

Para os gramáticos alexandrinos, como para os seus epígonos romanos e bizantinos, a gramática cumpria uma função eminentemente prática, isto é, servia ao estudo dos textos e ao ensino da língua; já os filósofos antigos e medievais concentraram seu interesse no valor teórico da disciplina, porque entender a natureza da linguagem era, para eles, compreender um componente essencial da natureza humana. Hoje a gramática pode ser concebida como a descrição abstrata de estruturas mentais ou como a análise dos processos envolvidos na construção dos textos. A diferença entre os dois enfoques corresponde, em linhas gerais, à distinção entre as concepções formalista e funcionalista da gramática, mas não implica que tais concepções sejam necessariamente excludentes, ou as únicas possíveis.

É, sobretudo, sob o aspecto prático que a relevância da gramática tem sido questionada de forma mais severa. E não de hoje, como sugere a queixa de Quintiliano. Contudo, por mais reservas que se façam à utilidade da gramática, há um quase consenso de que o domínio reflexivo dos fatos linguísticos, necessário ao desempenho consciente e crítico da capacidade verbal, não pode dispensar a abordagem desses fatos em termos de alguma teoria gramatical. No ensino de línguas, a problemática tem a ver, principalmente, com o tipo de gramática adotado e sua articulação com o tratamento das habilidades discursivas requeridas na comunicação. Pela ênfase na construção textual, as abordagens funcionalistas têm se prestado, com mais eficácia do que as formalistas, à aplicação ao ensino de línguas.

Por outro lado, sob o aspecto teórico, enquanto descrição de fatos que se encontram no âmago do fenômeno linguístico, a gramática tem o seu lugar como disciplina científica reforçado à medida que outras perspectivas – cognitivas, sociológicas, biológicas – se estabelecem e começam a cooperar na investigação dos segredos da linguagem humana. Parece, então, que se vai respondendo afirmativamente à pergunta feita, em meados do século passado, pelo filósofo inglês J. L. Austin: “Não será possível que o próximo século veja o nascimento, através do trabalho conjunto de filósofos, gramáticos e numerosos outros estudantes da linguagem, de uma verdadeira e abrangente ciência da linguagem?”.

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