Competência e heroísmo

Luzilá Gonçalves Ferreira
Doutora em Letras pela Universidade de Paris VII e membro da Academia Pernambucana de Letras

Publicação: 05/09/2017 03:00

A televisão mostrou inicialmente uma imagem de esperança: o sorriso de Zilda Arns ao chegar ao Haiti para ajudar a criar a Pastoral da Criança, como fazia no Brasil,  em prol de crianças órfãs, desnutridas, ou em estado de risco, por razões que conhecemos. E veio o terremoto que devastou o pais, e apagou o sorriso daquela brasileira que atestava o poder de minorias que não desesperam, quando dela faz parte gente atuando em setores diversos, como Betinho, como Darcy Ribeiro, como Dom Helder, Paulo Freire ou Rubem Alves. Agora, em meio a tanta coisa ruim, cada vez que a gente abre o jornal, de repente uma notícia boa: aquela que, ao indicar que as tropas brasileiras que durante 13 anos permaneceram no Haiti em missão de paz, e que vão deixar  paulatinamente, o país caribenho, anuncia que se conseguiu o que havia sido estabelecido desde 2006, quando o então ministro da Defesa Celso Amorim, reunido com representantes de 16 países e 11 organizações internacionais, anunciara a missão do Brasil naquele país devastado: ajudar a combater a pobreza, a violência, colaborar de algum modo na reconstrução de paisagens e vidas, num dia a dia cada vez mais difícil, com quadros graves de doenças, desordens de ordem política, epidemias, imigrações em massa. Claro, ninguém é bastante inocente para pensar que a partir de agora, os problemas do povo haitiano estão resolvidos, mesmo sabendo que a ONU continuará a apoiar e fortalecer as instituições da justiça, da ordem pública. Mas é reconfortante pensar que nesses treze anos de nossa presença no Haiti, alguma estrada foi refeita, alguma comunidade teve parte de suas casas reconstruídas, alguma criança foi salva da doença ou da fome. E pensar também: que alguns dos nossos ali, tenham despertado para continuar a vida em função do que descobriram, na colaboração  ao exercício dos direitos humanos, e, por que não dizer, na consciência de autoestima, e aí eu lembro a frase de Guillaumet, o companheiro de Saint-Exeupéry perdido na neves dos Andes, e que exausto e faminto, consegue resistir ao desânimo, ao desespero, porque os seres amados confiavam nele “o que eu fiz nenhum animal o faria ( “ce que j’ai fait, aucune bête ne l’aurait fait”). Na cerimônia que anunciava a desmobilização de nossas tropas, o ministro Raul Jungmann falou da competência e profissionalismo que marcaram a nossa missão de paz. E saudou os heróis que dela participaram.

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