EDITORIAL » Assédio sexual

Publicação: 05/09/2017 03:00

Inaceitável. Talvez seja esse o adjetivo mais adequado para definir o assédio sexual. A violência, graças ao aumento de denúncias de mulheres que se sentem agredidas, ganha visibilidade e chama a atenção para a prática cujas raízes remontam a passado que deveria ter sido enterrado na poeira do atraso.

Vão longe os tempos que inspiraram o Padre Antônio Vieira a afirmar que a mulher só deveria sair de casa em três oportunidades — no batizado, no casamento e no enterro. Sobretudo depois do movimento libertário da década de 60, a mulher conquistou direitos indiscutíveis. Foi às ruas, invadiu universidades, conquistou o mercado de trabalho. Mesmo setores masculinamente fechados como as Forças Armadas lhe abriram as portas.

A mentalidade, porém, ficou em descompasso com a mudança social. O machismo, que considera a pessoa do sexo oposto propriedade da qual pode dispor como lhe aprouver, continua vivo como no século 16. Daí a ocorrência de assédio sexual em ruas, escolas, cinemas, transporte público. Vale o exemplo. No primeiro semestre deste ano, ocorreram 1.370 estupros na cidade de São Paulo. A média: um a cada 11 horas.

Só em trens e metrôs, registraram-se 127 denúncias no mesmo período na capital paulista. Não há risco de incorrer em erro caso se afirme que há subnotificação. O número deve ser bem maior. Muitas mulheres não denunciam os abusos seja por falta de tempo, seja por descrença na punição, seja por ver com naturalidade o ato tantas vezes repetido sem nenhuma consequência.

A afronta não constitui exclusividade da cidade mais populosa do país. Estende-se Brasil e mundo afora. O assunto mereceu estudo da Organização Mundial do Trabalho (OIT), que assim o caracterizou: “O assédio sexual está intrinsecamente ligado com o poder e, na maioria das vezes, acontece em sociedades em que a mulher é tratada como objeto sexual e cidadã de segunda classe”.

Impõe-se, pois, mudança de mentalidade. Trata-se de transformação lenta mas indispensável. Punição é um dos caminhos a ser seguidos. Abusadores têm de responder na Justiça pelo ato. A certeza da punição é, com certeza, inibidor de aventuras machistas. É necessário também prevenir. Campanhas dos meios de comunicação de massa acendem a luz amarela na cabeça dos que pensam embarcar em prática que conhecem ou da qual já ouviram falar.

A escola e a família também desempenham papel substantivo. Meninos precisam ser educados a respeitar as meninas. Só assim, a doença social que pune a mulher tanto no espaço doméstico quanto no espaço público baterá ponto final. Enquanto não atingirmos esse grau de conscientização, o homem que teima em desconhecer a leitura correta do tempo pensará duas vezes antes de atacar. Assédio sexual é inaceitável.

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