A religião do consumismo

Maurício Rands *
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Publicação: 04/09/2017 03:00

Com o capitalismo consolidou-se uma estranha religião. Para funcionar, o mercado precisa do consumo. Inverte-se a lógica. Ao invés de produzir um bem para satisfazer uma real necessidade humana, o mercado cria uma necessidade artificial para então produzir um bem capaz de satisfazê-la. Para, assim, fomentar o crescimento econômico. Desenvolve-se uma cultura em que ostentar o consumo parece sinônimo de bem-estar e sucesso. Os closets dos apartamentos são cada vez mais amplos. Carros são anualmente trocados. Notebooks e smartphones são feitos para durar no máximo três anos. Os mesmos equipamentos onde se postam fotos de “momentos felizes”.

As ferramentas tecnológicas são consumidas sofregamente para mostrar aos “amigos das redes” a própria “felicidade e sucesso”. Que são equiparados a consumir. Roupas da moda, vinhos caros, carros novos e viagens. Não espanta o desconforto que a hiperconexão está causando aos que não podem consumir tanto.  Comemos muito mais do que necessitam nossos organismos. Para logo em seguida consumirmos os serviços de um spa ou de um nutricionista que nos ensine uma dieta. A obesidade e a diabete matam mais do que as guerras.

No livro Sapiens, Harari registra o grande sucesso dessa ‘religião’. A natural fragilidade do barro humano faz com que muitos dos adeptos das outras religiões não pratiquem os seus mandamentos. A maioria não dá a outra face quando agredida. Mas a religião do consumismo consegue que seus adeptos vivam de acordo com os seus cânones. Consumir passa a ser um objetivo de vida. Para que os outros os vejam quão bem sucedidos eles são ao seguir o que manda a nova religião.

Felizmente, a crítica a essa lógica invertida vai crescendo. Sobre carros, dou um depoimento pessoal. Mudanças recentes na vida levaram-nos a não trocar o carro com tanta frequência. Entrando ano, saindo ano, Patrícia e eu com os mesmos carros. Quando contamos, um estava com dez anos e o outro com cinco. Sem que ficássemos menos felizes por não termos carros do ano.

A medição atual do PIB começa a ser questionada como medida do desenvolvimento. Alguns propõem incluir nos cálculos do PIB outros itens subterrâneos. Que o trabalho doméstico e os serviços voluntários entrem na conta. Surgem outros indicadores. Como os “Indicadores de Progresso Social 2014 (IPS)”, da ONG Social Progress Imperative. Ou o Happy Planet Index, o Genuine Savings Indicators, o FIB (Felicidade Interna Bruta) e o movimento Beyond GDP na União Europeia. Inspirados em reflexões de gente como Amartya Sen, Joseph Stiglitz e Michael Porter. O objetivo passa a ser incluir as medições sociais e ambientais como indicadores de resultados de uma sociedade.

A busca por mais qualidade no desenvolvimento inclui em sua agenda o combate ao consumismo e ao desperdício. A constatação de que um terço dos alimentos produzidos no mundo são desperdiçados impulsiona um grande movimento sem fronteiras. Em novembro de 2016  foi lançado o Programa Save Food Brasil, com o apoio da FAO.  Iniciativas particulares criam sites para que as pessoas compartilhem o que não mais necessitam (e.g. https://yonodesperdicio.org). Outros lançam concursos de fotografias sobre desperdícios.

A outra face do consumismo acaba de ser mostrada em matérias do Diario sobre o Haiti, da repórter fotográfica Teresa Maia. Cenas de Porto Príncipe assemelhadas às das nossas favelas. Crianças que ainda pouco consomem. Ou que consomem as “bolachas de terra”, feitas com um pouco de barro espalhado em um frigideira, com sal, óleo e algum condimento.

* Advogado, PhD pela Universidade Oxford, professor de Direito da UFPE

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