EDITORIAL » Brasil fora dos trilhos

Publicação: 04/09/2017 03:00

Ficar parado longe está de permanecer no lugar. Não mover-se é retroceder. A razão é simples. Os outros avançam e vão deixando o imobilizado para trás. A afirmação vem a propósito do transporte sobre trilhos no Brasil. Na década de 50, a malha ferroviária nacional tinha 33 mil quilômetros de extensão. Hoje, 70 anos depois, 28 mil.

Considerada a dimensão continental do país, o descaso com que o setor é tratado constitui prova de cegueira e imprevidência. Trens não poluem, são capazes de transportar maior número de passageiros de uma única vez, estão livres de congestionamento de trânsito e de transtornos climáticos.

Mas, apesar das indiscutíveis vantagens, o modal padece de sucessivo descaso que praticamente o riscou do mapa. A explosão da indústria automobilística na segunda metade do século passado contribuiu para a mudança de rumo. Brasília serve de símbolo. Com largas avenidas e alta dependência de carro particular, a capital de JK demonstra a preferência indiscutível do Estado pelo asfalto.

Sai governo, entra governo, ressuscitam-se promessas para a recuperação de ferrovias. A segunda etapa do Plano de Aceleração do Crescimento (PAC), por exemplo, previa aportes de R$ 44 bilhões entre 2011 e 2014 para a expansão da malha e a construção de linhas de bitola larga. Também recuperar estradas de ferro construídas no século 19 e início do 20 que, abandonadas, perderam a utilidade ou sobrevivem graças à subutilização.

A Ferrovia Norte-Sul, inaugurada em 1987 pelo então presidente José Sarney sem estar concluída, continua no meio do caminho. Mas é a aposta do governo para revitalizar a malha férrea e aumentar a capacidade logística. Segundo proposta do Sistema Nacional de Viação (SNV), do Ministério dos Transportes, ela seria o eixo integrador a conectar as demais e a formar rede estruturada e ampla.

A proposta não é nova. Nem são novos os problemas que emperram a chegada ao fim da linha. A Norte-Sul tem trechos concluídos e operantes. Tem trechos concluídos, mas sem uso. Tem, também, trechos inconclusos. A fim de que cumpra a função para a qual foi projetada, impõe-se chegar à parada final. Trata-se de urgência inadiável. O Brasil precisa de trens para se desenvolver e melhorar a mobilidade.

O desafio exige mudança de mentalidade. De um lado, há que dar atenção ao modal ferroviário. De outro, combater a corrupção, mal que enferrujou (e enferruja) os trilhos nacionais. O ex-presidente da Valec, empresa pública responsável pelo setor, Juquinha das Neves está preso (o filho também) por malversação de recursos públicos. Ambos são alvo da Lava-Jato.

Embora com atraso, o Brasil precisa aprender lições. Uma delas: o trilho de trem não pode ser descartado. Ao contrário. Tem de ser integrado aos demais sistemas. Outra: os meios de transporte não são concorrentes, mas complementares. A última, não menos importante: o trem não deve se restringir à movimentação de cargas. Deve servir também a passageiros.

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