Manifesto das águas

Danilo Cabral
Deputado federal PSB/PE

Publicação: 02/09/2017 03:00

O Velho Chico já embalou sonhos e canções, foi pródigo em alimentar o Nordeste com seus Surubins (que dá nome à minha amada cidade), Pirás, Matrichãs e Curimatãns, que eram abundantes em suas águas. Este rio fabuloso gera vida e mata a fome e a sede dos nossos irmãos nordestinos desde o início dos tempos, banhando as terras em suas margens. Hoje gera vida a centenas de quilômetros de distância com a sua transposição. Na década de 50, o São Francisco começou a ser motor que impulsiona até hoje o desenvolvimento do Nordeste e do Brasil, com as turbinas construídas pela Companhia Hidro Elétrica do São Francisco, a nossa Chesf.

Estas obras impressionantes da engenharia, pioneiras à época, mudaram o curso do rio, inundaram vales e deslocaram cidades para criar os grandes lagos que alimentam as várias turbinas hidroelétricas espalhadas nas usinas: Araras, Boa Esperança, Camaçari, Curemas, Funil, Luiz Gonzaga, Apolônio Sales, Paulo Afonso I, II, III e IV, Pedra, Xingó e Sobradinho. Durante décadas, os lagos das hidrelétricas embalaram lendas e canções. O velho Antônio Conselheiro profetizava que o Sertão iria virar mar e quase virou com os lagos da Chesf. O Gaiola subiu por cima da cachoeira e a Chesf fez o Sertão virar o mar no coração da nossa gente.

Quando se fala na Chesf, cabe ressaltar a importância da empresa. Em plenos 70 anos, a Chesf é responsável por 10% da capacidade de energia instalada no país. São 4200 trabalhadores, sendo 2200 em Pernambuco. A Chesf atua em prol da população do Nordeste, que juntos somamos 54 milhões de habitantes.

Esta empresa está integrada a nosso povo, ela pertence ao nosso povo. A Chesf é a chave do Rio São Francisco, suas comportas regulam a vazão do Rio e disponibilizam água do Sertão ao Litoral. Então privatizar a Chesf é dar a chave da caixa d’água do Nordeste para o empresário! É colocar na mão de outra pessoa o futuro da irrigação que movimenta e economia de dezenas de cidades. Vender a Chesf é vender a água e a água é vida! Então vender a Chesf é vender a vida do nordestino. Já não basta o preconceito? A desigualdade social e a seca? Vender a Chesf é uma crueldade, é um crime contra a humanidade. Não podemos deixar que privatizem a vida! Em pleno século 21 corremos novamente o risco de sermos escravizados pela água.

Se não bastasse esse crime contra o povo, vender a Chesf é vender o futuro do país, pois a energia é que gera o desenvolvimento. Se não tiver eletricidade, a Jeep não mói, a Hemobrás não processa o sangue lá em Goiana. Sem energia, a feira de Caruaru não funciona, as frutas de Petrolina não amadurecem, a Bodega do Véio não abre lá em Serra Negra, a costureira de Toritama não alinha o vestido. E esse povo todo vai depender de um empresário com visão de lucro e não visão social.

O Ex-Governador Miguel Arraes enquanto vivo instituiu um dos maiores programas de inclusão social que já se viu no país. O projeto Luz para Todos. A meta era iluminar todo o estado de Pernambuco. Na época, levar a eletricidade era instalar quilômetros de fios e enterrar milhares de postes para levar um bico de luz a um povoado de 10 ou 15 casas. Economicamente inviável sob o olhar do empresário, fundamental sob o olhar do social.

Certa vez, nas suas andanças pelo Interior, em um evento para comemorar a chegada da luz em um povoado pequeno no Sertão, o Doutor Arraes conheceu um sertanejo desses valentes. Um senhor com 70 e poucos anos que disse: “Isso aqui é muito bom, porque sem força a força se acaba”. É isso que representa a venda da Chesf para nós. Sem a Chesf, a força se acaba. Por isso, não à privatização da Chesf, porque a força do povo nordestino não acabará jamais.

Os comentários abaixo não representam a opinião do jornal Diario de Pernambuco; a responsabilidade é do autor da mensagem.