Bons momentos entre amigos

Marly Mota
Membro da Academia Pernambucana de Letras e membro da Academia de Artes e Letras de Pernambuco

Publicação: 02/09/2017 03:00

O meu professor, poeta e amigo, Padre Daniel Lima, levando a sua maneira de existir e suas excentricidades, tal qual a maneira do também excêntrico, grande poeta Murilo Mendes, mineiro de Juiz de Fora, nascido em 1901, data de nascimento do meu pai. Desde adolescente tive um fascínio pelos seus poemas memorialistas. Murilo Mendes foi antologiado por Manuel Bandeira e sua longa figura foi desenhada por El Greco. Escreveu em 1935 Tempo e Eternidade, o livro que marca a sua conversão ao catolicismo. Mudando de ares, para curar uma tuberculose, foi morar no Rio de Janeiro, no bucólico bairro de Santa Teresa, frequentou a casa de Cecília Meireles. Foram grandes amigos, também do pintor e poeta Ismael Nery.

Residiu na Itália, Espanha e Portugal, onde tem várias de suas obras traduzidas. Sempre muito festejado na cidade maravilhosa, gostava de caminhar com os amigos, prolongando as tardes preguiçosas por ruas, casas com portões cobertos de jasmineiros, de onde se ouvia o som de distantes pianos. Em Botafogo onde morava, Murilo viu uma mulher à janela de um sobrado antigo, como os de Minas, sua terra. Numa das suas excentricidades, não se contendo, da calçada fronteiriça, o poeta exclamou estendendo os braços para o alto: “Há muito tempo não via uma mulher na janela! É um quadro belíssimo, minha senhora”! Assustada, a mulher fechou a janela, achando que o homem era louco. Consciente da sua cordialidade, o poeta continuou o seu passeio ao lado dos amigos, entre eles o cronista Rubem Braga, que nos contou o episódio. Nos trânsitos entre Lisboa e o Brasil, Murilo Mendes, com a bela mulher Maria da Saudade Cortezão, poetisa portuguesa, passando pelo Recife visitaram o Diario de Pernambuco, no velho edifício da pracinha. Recebeu-os Mauro Mota, diretor do jornal. Sempre quis conhecê-los. Ali estava a oportunidade esperada, mas, uma estranha timidez me impedia festejá-los. Por escritores e jornalistas: Antonio Camelo, Laurênio Lima, Paulo do Couto Malta, Samuel Soares, Andrade Lima Filho; o fotógrafo Diógenes retratava o grupo. Antes de seguirem ao Aeroporto dos Guararapes, Mauro Mota levou-os para jantar no Restaurante Leite, prolongando os bons momentos com os amigos.

Tempos depois no Rio de Janeiro, década de 70, quando Mauro Mota foi eleito para a Academia Brasileira de Letras, fomos convidados pelo casal amigo, pintora Nazaré Costa e poeta Odilo Costa Filho, para visitar a Petite Galerie, expondo as excelentes pinturas de Ismael Nery. Lá estava o retrato de Murilo Mendes, pelo expositor. Qual não foi a nossa surpresa ao ver o próprio Murilo Mendes a nos festejar com alegria entre os amigos presentes.

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