Uma semana de consolidação

Alexandre Rands Barros
Economista, PhD pela Universidade de Illinois, presidente da Datamétrica e do Diario de Pernambuco

Publicação: 02/09/2017 03:00

A semana trouxe notícias positivas e negativas, mas todas dentro do que já se esperava. O PIB no segundo trimestre de 2017 cresceu 0,25% quando se compara ao primeiro trimestre do mesmo ano e se considera a série com ajuste sazonal. Após oito trimestres de crescimento negativo, tendência revertida no primeiro trimestre de 2017, quando se compara ao último de 2016, esse novo crescimento positivo confirma que o país realmente está saindo da recessão, embora de forma ainda lenta. O crescimento no segundo trimestre de 2017 foi puxado principalmente pelo consumo das famílias, que cresceu 1,36%, quando se compara ao trimestre imediatamente anterior. Esse também é um indicador importante, pois mostra que as famílias estão se sentindo mais seguras para gastar mais. Outras estatísticas liberadas ao longo da semana mostraram também que a taxa de desemprego para o trimestre terminando em julho teve ligeira queda em relação ao trimestre anterior, concluído em abril. Sendo também uma estatística positiva e que sinaliza para uma recuperação lenta da economia brasileira. O rendimento médio real de todos os trabalhos, recebido pelas pessoas que trabalham, por sua vez, manteve-se estável entre esses dois trimestres.

Por outro lado, o déficit primário do governo federal em julho foi visto como elevado, apesar de ter havido queda do déficit nominal, pois as quedas nas taxas de juros compensaram o déficit primário. O aumento do emprego reportado também traz algumas informações perversas. 32,5% das pessoas que conseguiram colocação no mercado de trabalho foram incorporados como empregados sem carteira assinada e 29,4% como empregados no setor público. Os por conta própria responderam por 24,3% desses trabalhadores. Somente 3,75% ingressaram como empregados com carteira assinada no setor privado. Ou seja, a maior parte do emprego gerado ainda possui má qualidade. Esse tipo de distribuição por condição na ocupação é comum nas retomadas após período recessivo.

No balanço, contudo, o índice Ibovespa subiu na semana, o que mostra que os agentes que atuam no mercado de capitais melhoraram suas expectativas quanto ao futuro próximo. Isso ocorreu porque houve percepção pelos agentes de que aumentou a estabilidade da economia, algo capturado inclusive pelo índice de incerteza da FGV. Além disso, os agentes também perceberam que apesar de não ter havido grandes mudanças em relação ao que já se esperava nas novas informações que fluíram na economia ao longo da semana, houve consolidação de algumas mudanças previamente anunciadas. Houve extensão do prazo de adesão ao Refis e a formação de alguns acordos positivos na sua versão que será aprovada na Câmara de Deputados. Negociações em torno da medida provisória que institui a TLP também avançaram. Além disso, houve amadurecimento no formato das privatizações, o que torna o processo mais provável de ocorrer. Enfim, tivemos uma semana de consolidação de melhoras já constatadas nas últimas semanas, e que sinalizam claramente para uma recuperação lenta. O risco ameaçando-a no momento continua sendo de que surja uma nova instabilidade política gerada pela nova denúncia contra Temer. Tal fenômeno pode reduzir ainda mais o ritmo da recuperação.

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