EDITORIAL » Turismo, a indústria que o Brasil não aproveita

Publicação: 02/09/2017 03:00

O mundo está tão confuso que até o turismo está sendo alvo de hostilidades, fenômeno que a imprensa europeia tem tratado como “turismofobia”. Em Barcelona (Espanha) grupos radicais já atacaram pelo menos sete hotéis. A foto de uma pichação em muro da cidade, com os dizeres “All tourists are bastards”, viralizou na internet. O sentimento de hostilidade encontra eco na prefeita Ada Colau, que afirmou: “Não queremos que a cidade se transforme em uma loja de lembrancinhas baratas”. Não é o único caso - atitudes semelhantes são encontradas em  Veneza (Itália) e outras cidades. O jornal britânico The Independent fez matéria sobre nove lugares onde os turistas não são bem-vindos. Nenhum deles está na América Latina - e aí chegamos ao ponto que queremos enfocar.

O Brasil recebeu 6,5 milhões de turistas ano passado. Com o perdão da palavra, é uma ninharia comparado com o fluxo que se dirige a outros países. A Espanha, por exemplo, recebeu só em julho passado 10,5 milhões. Já a França, em todo o ano de 2016, teve 83 milhões de visitantes. Os números vão causar mais estupefação se a gente comparar a dimensão dos territórios — o Brasil é cerca de 15 vezes maior que a Espanha.

É compreensível que vá mais gente para os destinos tradicionais do que para cá. Barcelona, Paris, Londres, Veneza, são cidades que têm fascínio para qualquer cidadão do mundo. Os meios e alternativas de circulação dentro da Europa são mais diversificados e acessíveis do que entre um estado e outro do Brasil. A questão, no entanto, não é que vá tanta gente para lá, e sim que venha tão pouco para cá.

Façamos outra comparação, agora com um país mais parecido com o nosso — o México. O resultado aí nos é igualmente desvantajoso. O número de turistas no México, ano passado, foi de 23 milhões, cerca de quatro vezes o total do Brasil. A Cidade do México recebe mais visitantes do que todo o nosso país.

Outro argumento que se costuma levantar é o da violência. Os turistas não viriam em maior número para o Brasil por causa dos altos índices de violência. Nesse caso, convém lembrar que o México está longe de ser um paraíso de paz. E na Europa tivemos os casos do terrorismo, que causaram queda no fluxo de turistas, mas não a ponto de reduzi-lo significativamente (na França, por exemplo, calcula-se que 1,5 milhão de pessoas deixaram de visitar o país em virtude das ameaças terroristas).

O problema, então, está em outra área. “Deve-se perguntar o que impede o Brasil de ter uma indústria do turismo que poderia criar milhões de empregos e aumentar o PIB nacional”, afirma o jornalista e escritor espanhol Juan Arias, em artigo publicado ontem no El País. “Não seria porque os governos no Brasil, ocupados com a pequena política e em proteger seus privilégios, nunca levaram a sério que o turismo internacional poderia ser uma fonte de riqueza nacional?”. Arias ressalta um detalhe importante: depois dos atentados terroristas na França, as autoridades implementaram 59 medidas de promoção do turismo. “Quantas medidas e de qual eficácia o governo brasileiro adota para promover o turismo estancado há anos?”, pergunta ele.

Cidades como Barcelona e Veneza podem queixar-se dos turistas -  depois de terem ganho muito dinheiro com eles, diga-se de passagem -, mas o fato é que o turismo responde por 10% do PIB mundial. Na média, de cada 11 empregos um vem da indústria turística, cujos rendimentos superam a indústria automobilística, do petróleo e dos alimentos. Trata-se de um filão que até hoje o Brasil não soube explorar.

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