Outro mau governo

José Luiz Delgado
Professor de Direito da UFPE

Publicação: 01/09/2017 03:00

Poderia ser outra coisa – trata-se, afinal, de homem público reconhecidamente moderado e sensato. Mas perdeu-se nisso que aí está: um mau governo, outro mau governo. Pretenderá alegar que é culpa da herança que recebeu, o rombo imenso nas contas públicas que o governo anterior (de que, aliás, era o vice-presidente) lhe legou.  Mas com essa herança maldita lida da pior forma possível.

Puseram na sua cabeça que somente um governo como o seu – sem pretensões à reeleição –  poderia enfrentar e resolver o tal “déficit” da previdência, e, assim, entraria para a história. Não parou para pensar no que a previdência consiste, e que a tal invenção do regime de “solidariedade” é pura mentira, e que, se está havendo hoje na prática, de fato, a tal “solidariedade” das gerações, é por culpa do próprio governo, os sucessivos governos que dilapidaram os recursos da previdência (às vezes até para obras importantes). Não percebeu que uma boa reforma da previdência implicaria justamente no contrário do que vem sendo feito, a partir do lamentável sr. FHC; implicaria em extinguir o “teto” e permitir que todos se aposentassem com a remuneração que efetivamente percebiam na ativa (claro, proporcionalmente ao tempo em que tivessem contribuído dessa forma integral, sem o teto), e que somente isso já traria para a previdência receita substancial.

E, para evitar o processo do crime que teria cometido, abriu os cofres para comprar votos de deputados, no mais desbragado fisiologismo (não inédito, já praticado desde a reeleição do sr. FHC, mas sempre indigno e escandaloso). Aumenta, assim, os gastos, a despesa, o déficit monumental. Por que não ousa cortar despesas absurdas que se vêem em quase todos os setores do governo? Porque não tem autoridade moral. Por que não denuncia à nação os gastos abusivos dos parlamentares? Porque está na mão deles. Por que  não cobra as dívidas previdenciárias, que notícias dizem ser superior a 200  bilhões, bem maior, portanto, do que o déficit já atualizado da “meta”?  Por que desonera setores econômicos, os poderosos de sempre, os grandes para os quais tudo se facilita? Porque, impopular como é, com apoio popular ridículo, as únicas forças com que conta são a Fiesp e a CNI, que o mantém refém...

Está cercado quase somente de denunciados ou suspeitos, aqueles que desfiguraram o PMDB dos melhores sonhos, um dos piores grupos que já se viu na política brasileira de todos os tempos. Os nomes de sua maior confiança e intimidade são réus, foram presos ou estão denunciados, tiveram de deixar o governo ou lá ainda continuam até  à próxima delação. Triste governo, que não inspira nenhuma confiança e  nenhuma esperança. Cansado, apático, melancólico, deprimente, sem horizonte, sem serviço para prestar ao país. Não era melhor que fosse embora? Servirá, ao menos, essa agonia, para renovarmos a política no Brasil? Não tenho muitas ilusões de que, nas próximas eleições, o país se livre dessa corja de maus políticos que o infelicitam.

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