Mural de Brennand na ABL: o gigante Nabuco

Lucas Santos Jatobá
Supervisor jurídico no TRF-5ª Região. Pós-graduado em Direito Penal

Publicação: 01/09/2017 03:00

É muito gratificante para o pernambucano que se dirige à Academia Brasileira de Letras, no Rio, deparar-se, a um só tempo, com dois personagens tão representativos de nosso estado, de diferentes épocas, mas ali perpetuados pela magnitude de suas obras, ideias e ideais, que de há muito extrapolaram os limites territoriais do país, como é o caso de Francisco Brennand e de seu homenageado Joaquim Nabuco, qual religação alegórica, em plena pós-modernidade, de antigos engenhos de açúcar e de figuras remanescentes da Várzea e de Massangana, num surreal reencontro de afinidades conterrâneas, de épocas e ideologias à margem de delimitação temporal ou de qualquer outra ordem – riqueza e poder da arte: voltar e avançar no tempo...

Há algo de nostálgico no grande e belo mural cerâmico brennandiano “O gigante Nabuco”, inaugurado em 2010, quando das comemorações do centenário da morte do abolicionista e acadêmico: uma coroa abandonada no chão; Dom Pedro II (autorretrato de Brennand?) em um arremedo de trono, pensativo ou cochilando, sem os paramentos da realeza; ocaso do Império...; um cavalo adentra as dependências do decadente salão imperial, montado por um oficial que sequer olha para o soberano, assim como um cachorro esquálido..., como que aderindo ao cenário de estertores de uma era: agoniza a Monarquia. Que tempos virão? Sim, o desconhecido espreita a história! Segue-se a figura destacada de Nabuco já maduro, cumprimentando um escravo liberto, em cima de um pedestal que comporta enigmáticos dizeres concebidos pelo diplomata: “A força do desconhecido está em que ele não se presta a comparações. 1877”. Vê-se, ao fundo, talvez Nabuco criança, de calças curtas, ouvindo lamentos de um escravo ajoelhado, episódio comum ao seu derredor, em Massangana, pungente e marcadamente influente em suas obras e discursos abolicionistas, como em “A Escravidão” e em “Minha formação”, dentre muitos escritos.

Nabuco, ainda no mural, aponta, agora, para os grandes escritores Euclides da Cunha e Machado de Assis: é o mundo acadêmico, da imortalidade, como bem dito pelo “Bruxo do Cosme Velho”, em frase lapidar reproduzida em sua estátua de bronze, que a todos recebe na entrada do ‘Petit Trianon’: “Esta a glória que fica, eleva, honra e consola.”

Brennand reproduz, no mural da ABL, na lapidação das pedras e do barro, painel de atmosferas pernambucanas de forte conteúdo histórico e de importância nacional, ao homenagear um vulto das liberdades, na sequência de antigos e belos monumentos, no Recife, em mármore, de outros artistas – insuficientemente preservados e pouco divulgados –, como, por exemplo, o mausoléu no Cemitério Senhor Bom Jesus da Redenção (Santo Amaro) ou no conjunto escultórico da Praça Joaquim Nabuco, todos de mensagem antiescravagista.

Pode-se afirmar, no rastro, inclusive, dos propósitos e intenções do advogado e acadêmico Joaquim Nabuco, quanto à necessidade de aprimorar os quadros da ABL, diversificando as qualificações dos futuros integrantes, principalmente no campo das artes, delineados em famosa correspondência (Londres, 08.10.1904) a Machado de Assis, que Francisco Brennand – Prêmio Interamericano de Cultura Gabriela Mistral, pela OEA (Washington, 1993), autor de “Diario” (2016, 4 tomos) – adequar-se-ia, sob qualquer prisma, aos requisitos da imortalidade acadêmica, dispostos pelos seus cofundadores: “A minha teoria já lhe disse, devemos fazer entrar para a Academia as superioridades do país. (...). É preciso introduzir as notabilidades dessas vocações que também cultivem as letras. E as grandes individualidades também.”.

A instalação do mural “O gigante Nabuco”, na Academia Brasileira de Letras, bem diz que o artista da Várzea, seu autor, já integra, definitivamente, desde 2010, aquele templo da cultura nacional, e que, ao menos em essência, o projeto de Nabuco, Machado e outros “imortais” já alcançou 120 anos!

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