EDITORIAL » Trabalho escravo no século 21

Publicação: 31/08/2017 03:00

Em um  mundo marcado por tantas transformações sociais, econômicas e tecnológicas, causa espanto que ainda haja pessoas trabalhando em condição análoga à escravidão. E, às vezes, o produto desse trabalho estabelece ligações com empresas importantes, o que na prática seria como se houvesse uma ponte ligando práticas do passado com as formas de produção do presente. A julgar por ação da Justiça Federal, ontem, um desses casos supostamente aconteceu em São Paulo.

Lá a Justiça Federal abriu ação criminal contra executivos da confecção de roupas Gregory por “supostamente reduzirem trabalhadores bolivianos à condição análoga a de escravo”, informa o noticiário. Acatou a denúncia apresentada pela Procuradoria da República, segundo a qual foram encontradas  vinte e duas pessoas trabalhando “submetidas a condições degradantes, jornadas exaustivas e atividades forçadas”. A fiscalização ocorreu em fevereiro e março de 2012, e foi executada por auditores fiscais em programa de erradicação do trabalho escravo urbano.

Essas “vítimas”, como as trata o relatório no qual a denuncia se baseou, não eram funcionários da empresa, mas trabalhavam para estabelecimentos e oficinas de costura em São Paulo. “Eram contratados por fornecedores diretos da Gregory para a confecção de peças de vestuário desenvolvidas pela marca, em um sistema de quarteirização da produção”, diz um dos trechos. Alguns detalhes são chocantes: em um dos estabelecimentos os fiscais encontraram um bebê de um mês de vida, dormindo em um berço montado improvisadamente com caixas de papelão, no meio de dois motores de máquinas de costura. Segundo a Procuradoria, “a mãe, que amamentava o filho durante a jornada de trabalho, nada recebeu durante o período que ficou no hospital após o parto e, ao retornar à oficina, voltou a trabalhar imediatamente”. Para quem fica em dúvida sobre o que é, no caso, “condições análogas à de escravo”, eis esse trecho, da denúncia: “Além das péssimas condições dos alojamentos, que incluíam sujeira, infiltrações, instalações sanitárias precárias e irregularidades na rede elétrica, os costureiros eram submetidos a jornadas que variavam entre 14 e 17 horas por dia”.

A Gregory emitiu nota afirmando que “repudia toda forma de exploração do trabalho” e que “os trabalhadores bolivianos resgatados nunca trabalharam para a Gregory, que desconhecia o problema”. Diz que eles “trabalhavam para oficinas, contratadas por empresas fornecedoras, sem autorização ou conhecimento da Gregory ou de seus sócios”. A nota encerra afirmando que a empresa “aguardará os trâmites regulares do processo e tem certeza da absolvição dos seus sócios”.

Independentemente de quem sejam os responsáveis (o que caberá à Justiça decidir), o chocante dessa história é a constatação de que no século 21 ainda tem gente trabalhando como escravo e, consequentemente, gente lucrando com o trabalho escravo. Em alguns setores, deixar o atraso para trás é uma jornada que parece não ter fim.

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