Vanzolini e nós

Luzilá Gonçalves Ferreira
Doutora em Letras pela Universidade de Paris VII e membro da Academia Pernambucana de Letras

Publicação: 29/08/2017 03:00

Ninguém melhor que um artista pra construir retratos de uma cidade – do ponto de vista social, sentimental. O Recife, presente e passado, belezas e mazelas, o rio, becos, bares e praças, está inteiro em Capiba, Mauro, Austro Costa, João Cabral, Bandeira, Arthur Carvalho, Jomar, Joca Souza Leão, entre tantos. Semana passada a TV Cultura nos deu longo documentário sobre Paulinho Vanzolini, talvez muito mais “São Paulo” que Rita Lee, que Caetano me perdoe. Sairam entrevistando gente pelas ruas e todos cantaram trechos de Ronda ( e nesse dia então vai dar na primeira edição cena de sangue num bar da Avenida S. João) e Volta por cima (“Levanta sacode a poeira e dá a volta por cima”). O documentário apresentou Praça Clovis, pelo próprio Paulinho, cantando episódio raro no tempo do compositor, hoje comum, infelizmente.. Mais ou menos isso: o artista tinha vinte mil reis e um retrato de ex-amada (indesejável?) na carteira. O ladrão bateu a carteira e o poeta bem humorado conclui: pra me livrar de você, “vinte mil reis, francamente foi de graça”. Pois outro dia pensei em Vanzolini. Minha ajudante de ordens trouxe o neto, dez anos, cria da Creche do Menino Jesus, de Padre Edvaldo, de que falei outro dia, uma benção no bairro de Casa Forte. Explicando e se desculpando, ela falou: “Greve de transporte, a creche não funcionou, eu trouxe ele pra me ajudar”. Fabinho, dez anos, magrinho, vivo, risonho, uma graça, tímido a principio logo se revelou falante e atuante. Disse o nome dos irmãos (nem recordo quais nem quantos, uma ruma como diria minha mãe), mas lembravam artistas, gente de televisão, adaptados e imitados foneticamente como Daiane, mas enfim. Trabalhou bem, o menino, passou óleo em móveis, pano molhado no chão, talvez até melhor do que a avó. Na hora do almoço comeu coisas nem tão usuais pra ele, a avó avisou, só gosta  de biscoito e coca-cola. Pois comeu como certamente comia na creche: verdura, feijão, fruta e até iogurte. Depois sempre falante, retomou o trabalho. No fim do dia depois de pagar a avó, dei, pra ele uma fortuna, uns bem merecidos dez reais. Os olhos brilharam. Sem saber como agradecer, pensou, me olhou e disse: “A senhora é muito bonita”. Foi aí que me lembrei de Vanzolini: “Por um tal elogio, dez reais, francamente foi de graça.”

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