EDITORIAL » Política é a arte de conversar

Publicação: 26/08/2017 03:00

A política é um espaço que se espera seja habitado por gente civilizada — em outras palavras, por gente que respeita o pensamento contrário do outro, que aceita conviver com quem defende teses opostas, que não se furta a conversar com não-aliados. Ontem, o presidente nacional interino do PSDB, Tasso Jereissati (CE),  deu um bom depoimento sobre isso. “Qual é a sua relação com o governador (do Ceará) Camilo Santana, do PT?”, perguntou o repórter. “A relação pessoal é ótima”, respondeu Tasso. “Nossas posições políticas são diferentes, especialmente no plano nacional. Mas ele é uma pessoa bem intencionada”. Uma resposta dessas engrandece não só o seu autor, mas a própria política.

Nada disso impede empenhar todas as forças para derrotar os adversários — comportamento, aliás, que faz parte do jogo. Quem faz política, o faz para ganhar, inclusive em disputas internas. Na mesma entrevista mencionada Tasso Jereissati também dá mostras disso. Como sabemos, ele está no centro do furacão provocado entre os tucanos após a exibição, no último dia 17, de um vídeo de propaganda do PSDB em que o teor do programa foi uma autocrítica do partido. Em determinado trecho, a peça publicitária diz que o PSDB cometeu o erro de participar do “presidencialismo de cooptação”, que seria aquele em que o apoio ao governo no Congresso é fruto do oferecimento de cargos. O conteúdo foi alvo de ataques de ministros tucanos e de outros integrantes do partido. “Eu não me arrependo de nada, tenho responsabilidade total pelo projeto”, reagiu Tasso.

Em virtude de sua “relação pessoal ótima” com o governador do seu estado, que é de outro partido, o repórter — a entrevista foi ao jornal Estado de S. Paulo — pergunta: “Quer dizer que, no Ceará, o PSDB não vai fazer um discurso antipetista, como o do João Doria, em 2018?”. E Tasso responde: “Nem no Ceará nem no Brasil. Não é o nosso estilo. Existem no partido várias nuances e o João Doria representa uma delas. Mas na média do PSDB, o discurso que queremos levar para a convenção não é anti, é pró”.  Acreditamos na sinceridade do senador, um homem público de 68 anos,  que já foi governador e que está familiarizado com as grandes questões nacionais. Mas, como hipótese, digamos que essa postura “seja marketing”, como costumamos dizer em relação a algumas posturas da política — mesmo assim, porém, ela merece destaque, porque está valorizando o “pró”, e não o “anti”, que leva à radicalização dos antagonismos, ambiente no qual uma simples conversa ou encontro é vista como a antessala da degradação.

Como se costuma dizer no jargão das redações, nessa entrevista o repórter “não alivia” para o entrevistado. “O que precisa mudar no PSDB, um partido considerado de caciques?”, indaga ele, e Tasso responde sem fugir da questão: “É preciso fazer uma autocrítica. Em alguns setores estamos distantes do que a população quer da política. Temos que ir para a rua e ver onde temos que melhorar. A militância do PSDB está desencantada com a política. A política ainda é a base da democracia”.  Como se vê, embora a conversa entre o jornalista e o líder partidário tenha sido sobre o PSDB, o seu conteúdo é emblemático a respeito de questões comuns a todas as legendas e à política em geral.

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