A confusão das línguas

Fanuel Melo Paes Barreto
Professor de Língua Portuguesa e Linguística/Unicap

Publicação: 25/08/2017 03:00

Muitos povos encontraram nos mitos etiológicos uma maneira de explicar aspectos da realidade física ou humana. Exemplos são as narrativas que nos legaram os antigos egípcios, os hindus, os hebreus sobre a origem divina da linguagem, seu papel na criação e manutenção do universo. Dos hebreus vem a tradição sobre a Torre de Babel, contando o audacioso projeto concebido pelos homens de construir uma torre que alcançasse o céu e como tal iniciativa foi frustrada por sutil intervenção divina que confundiu a linguagem e dispersou a humanidade sobre a face da terra. Além de servir a interpretações de natureza moral ou religiosa, a narrativa pode suscitar alguns temas para a reflexão linguística. Um deles diz respeito à relação entre a comunicação humana e a diversidade da linguagem.

Obviamente a diversidade linguística funciona como barreira à comunicação; no entanto, a diferença entre as línguas não é somente causa, mas também consequência do isolamento comunicativo. Contrariamente ao que sugere a concepção mítica, não parece ter sido a súbita diversificação de uma língua original que impossibilitou a comunicação entre os homens e os levou à dispersão geográfica. Se buscarmos explicar o passado à luz de processos operantes no presente, concluiremos que foi, principalmente, a dispersão geográfica que levou à progressiva diferenciação das línguas, aceitemos ou não uma origem única para a linguagem. Em geral, o distanciamento físico ou social dos grupos humanos, ao criar barreiras à comunicação, favorece a variação e a diversificação linguísticas.

Tomemos como ilustração desse princípio o caso da grande família de línguas indo-europeias, que tem absorvido a atenção dos estudiosos desde sua identificação, em fins do século XVIII. Tal família abrange línguas antigas como o sânscrito, o persa, o hitita, entre outras, além de boa parte dos idiomas modernos da Índia e Europa (inclusive o português). Para explicar as afinidades constatadas entre os membros dessa família, postula-se que tenha existido uma língua ancestral, o protoindo-europeu, falada por um povo oriundo da Ásia Central há 5 ou 6 mil anos. Os estudos histórico-comparativos conseguem identificar diversas etapas no desenvolvimento desse conjunto de línguas correspondendo a estágios da dispersão geográfica que a marcha migratória impôs ao povo indo-europeu ao longo dos séculos.

O interesse pela diversidade da linguagem humana foi efetivamente despertado quando se intensificaram os contatos dos europeus com os povos do Oriente e do Novo Mundo, no início da Idade Moderna. O estudo das línguas orientais e ameríndias, a descrição dos vernáculos europeus na forma de gramáticas e dicionários, o cultivo do poliglotismo, tudo isso pode ser caracterizado como "a descoberta de Babel", no dizer de J. R. Firth. Mas é importante notar que, com a maior conscientização da diversidade linguística, cresceu o anseio pela promoção da comunicação entre os povos. Não tardaram esforços no sentido de uma "debabelização" (adaptando um termo também de Firth). Houve iniciativas como as dos filósofos Francis Bacon (1561-1626) e G. W. Leibniz (1646-1716), direcionadas à elaboração de linguagens escritas universais, inspirado, o primeiro, nos hieróglifos egípcios e, o segundo, nos ideogramas chineses, como um meio de facilitar a comunicação internacional.

Se a via das linguagens artificiais para o entendimento universal ainda é seguida em nossos dias, como mostra o uso do esperanto por milhares de pessoas no mundo, outro caminho tem sido trilhado de forma mais espontânea e eficaz no curso da história: o da língua "franca" ou internacional. O grego, o latim, o francês e, sobretudo hoje, o inglês têm cumprido, a seu turno, esse papel. Decorrente que é da hegemonia política e cultural, a condição de língua internacional tanto gera animosidades quanto alimenta ufanismos. "O inglês é hoje a única esperança", escrevia convicto, em 1937, o mesmo J. R. Firth, futuro ocupante da primeira cátedra de Linguística Geral na Inglaterra, às vésperas da Segunda Guerra Mundial.

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