Jerry Lewis

José Paulo Cavalcanti Filho
Jurista e membro da Academia Pernambucana de Letras

Publicação: 25/08/2017 03:00

Houston (Estados Unidos). O elevador abre a porta e aparece Jerry Lewis. Velho, gordo, alto, calculei metro e noventa. Ombros caídos. Como se os anos, ou remorsos tardios, lhe pesassem. Ao perceber que olhava fixamente para ele, deu um sorriso. Mas nada, naquele rosto, lembrava seus antigos filmes. Agora, mais parecia uma careta. Deixei descer o elevador. Não tinha pressa. Foi se afastando devagar, num andar lento, até que se perdeu no fim do corredor. Como se fosse miragem. As imagens de antes já não eram reais. Nada, naquele homem cansado, evocava quem foi. Lembrei de Pessoa (em “O Marinheiro”), Falar no passado – isso deve ser belo, porque é inútil e faz tanta pena... Maria Lectícia chegou e me viu parado, olhando para o corredor. Perguntou quem era. Respondi, apenas, um fantasma do passado.

Cambridge (Estados Unidos). Lembro também 1969. Proibido de estudar no Brasil, pelo Governo Militar, acabei em Harvard. Graças a uma bolsa de estudos. Lá, fiquei num dos muitos edifícios que a Universidade reserva para estudantes. Aquele se chamava Whintrop House. Bons tempos. Depois, muitos anos depois, voltei à Universidade. Agora para dar aulas. Por conta da Unesco. Aproveitei e fui à dita Whintrop House. Maior diferença eram as árvores que haviam crescido, no entorno. E uma portaria nova. Estranhamente vazia. Subi ao primeiro andar e comecei a procurar o quarto em que vivi. Um guarda enorme surgiu do nada. Olhou severamente para mim, talvez por não gostar de ter subido as escadas sem sua autorização. Perguntou se estava procurando alguém. Sim, respondi. Quem? Completei, Me (eu). Num primeiro momento, foi como se não entendesse. Depois, riu e disse Espero que encontre. Nos dois casos, trata-se da mesma relação entre passado e presente.

Brasil. Jerry Lewis parecia em paz. Como alguém que não se arrependeu de nada. O comparo a tantos, no Brasil de hoje. Tão diferentes dele. Personagens que começaram suas biografias de forma gloriosa e não conseguiram completá-las decentemente. Que despertaram em todos nós sonhos, esperanças, ilusões. De um país melhor. Mais justo. Mais limpo. Que tiveram a chance concreta de mudar a realidade. E jogaram tudo isso fora. Só por interesses menores de poder. Ou vaidade. Ou grana. Envolvidos, todos, em corrupção. Numa cumplicidade envergonhada que uniu poderosos empresários, onipotentes e castos, com atores políticos encantados pelas benesses dos seus cargos. E que cederam à tentação de enriquecer.

A vida pune. Alguns estão presos. Outros serão. Outros mais, com sorte, e mesmo processados, talvez escapem. Mas todos estarão condenados a vagar, pelos corredores do destino, como Jerry Lewis. Como se fossem fantasmas. Ou portadores de alguma doença infecciosa. Quem os convidaria para ser padrinho de seus filhos? Quem daria emprego a qualquer deles? Quem teria pena, ou lhes diria palavras de conforto? Faltando só lembrar os que desejam, a todo custo, reviver o passado. Confiando na frágil memória de seus concidadãos. Não vai dar certo. Terão dificuldades até nas pequenas coisas do dia-a-dia. Como, por exemplo, frequentar restaurantes. Ou ficar nas filas dos aeroportos. Ou andar nas ruas. Pensando bem, há uma diferença grande entre eles. Que Jerry Lewis queria ser lembrado por tudo que fez. Enquanto esses, hoje, querem só que a gente se esqueça do que fizeram. The End.

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