Um grande sacerdote

José Luiz Delgado
Professor de Direito da UFPE

Publicação: 10/08/2017 03:00

Com a morte do Pe. Edwaldo Gomes, o Recife perde uma grande referência religiosa, pároco conhecido não somente na sua, mas em todas as outras paróquias, conhecido (e amado e admirado) pelo Recife inteiro.

Integrava uma magnífica geração de vocações sacerdotais, sendo pena que alguns deles, com as confusões pós-conciliares, hajam desertado e deixado a batina. Uma vez lhe fiz essa observação, dizendo ser mais um motivo para admirá-lo: não haver ele se deixado confundir por aqueles tumultos e permanecido fiel, quando vários (e excelentes sacerdotes) se perturbavam. Foi a graça de Deus, respondeu ele, com humildade. Sem dúvida, mas a graça de Deus encontrou uma vocação sincera e profunda, caiu na terra fértil de um coração verdadeiramente sacerdotal. E assim atravessou as tormentas pós-conciliares com admiráveis equilíbrio e fidelidade.

Preocupado com o social, sim – e exemplarmente – mas sem jamais fazer da política o centro da vida cristã. Insistia em que o cristão não pode deixar de cuidar desta cidade terrena, em que vive, padece e milita, mas não deixava de recordar que o destino do homem é o alto, e esta vida aqui, como a dele, agora, é apenas uma passagem, somos peregrinos a caminho da eternidade. Era sacerdote verdadeiro, não era padre político.

Não o encontrava, nos últimos anos, sem que logo ele se pusesse a falar de suas decepções e sua dor com o cenário político brasileiro e com a descomunal corrupção praticada por muitos daqueles em quem provavelmente havia votado.

Não cometia nenhuma heresia ao dizer que gostava da Igreja mas não gostava de alguns personagens dela. É a importante distinção entre a pessoa da Igreja, que é santa e imaculada, e o pessoal da Igreja, que é falho e pecador, mas que é preciso sempre respeitar e, sendo autoridade legítima, seguir. Chegou, porém, em certa fase, ao excesso de alterar a liturgia para, na oração pela Igreja, não referir explicitamente o nome do bispo  mas rezar genericamente “pelos bispos do mundo inteiro”.  Embora sem citá-lo, reclamei claramente disso, em artigo no qual elogiava a sabedoria da Igreja que não pede, de seus sacerdotes, fidelidade a uma ideia abstrata, ou a um coletivo generalizado, mas a autoridades muito concretas e muito reais: ao Papa N e ao bispo N, que a liturgia manda nominar explicitamente. O católico pode não ter especial simpatia por esse ou aquele bispo, mas não pode deixar de lhe ser fiel e obediente.

À parte essa queixa, sempre o admirei, louvando nele, além do zelo sacerdotal, o equilíbrio, o sentido do espiritual, o amor a Deus e à Igreja. Era padre que declarava explicitamente gostar de ser padre, e que mostrava – repito o que escrevi sobre ele na oportunidade do seu cinquentenário sacerdotal – como não é preciso ser bispo ou cardeal para ser exemplar discípulo de Jesus.

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