O colesterol e a sociedade

Lúcia Cordeiro
PHD, é médica endocrinologista e professora universitária de Medicina

Publicação: 09/08/2017 03:00

Há 30 anos o colesterol ganha destaque nas sociedades médico-científicas e na sociedade civil como fator de risco para doenças cardiovasculares: infarto, acidentes vasculares cerebrais, doença oclusiva periférica. Tanto é assim que merece o Dia do Combate ao Colesterol, lembrado em 8 de agosto.

Nesses 30 anos, muita polêmica está envolvida nesses níveis de gordura do sangue. A primeira delas é a dieta. A ciência propagou, erradamente, no passado por acreditar que a principal fonte de colesterol era a dieta, sendo o ovo o ícone dessa má fama. Logo o ovo! Rico em proteína, vitaminas e, também, porque não dizer, possuir, sim, colesterol. Mas, e daí? Se o seu maquinário para o controle do colesterol estiver bom, isso não será problema. Hoje sabemos que a fonte alimentar dessas gorduras contribui em um terço para o aumento do colesterol sérico.

O outro ponto polêmico envolve o tratamento. Se o colesterol não aumenta o risco cardiovascular, segundo propagam alguns, por que tratá-lo? E, ainda pior, as estatinas causam malefícios à saúde como efeitos adversos nos músculos, fígado e até como causa de demência. Tem ainda a premissa de que os baixos níveis de colesterol podem causar danos à saúde, informações fomentadas e propagadas por sites, blogs e outras mídias sociais de uma categoria que denomino “cientistas sem evidência científica”.

Adicionalmente, a propagação de que existe dano com o uso dos hipolipemiantes orais faz com que os pacientes tenham uma percepção errada dos seus efeitos colaterais. Efeito chamado nocebo, quando o paciente em uso de placebo tem uma incidência de efeitos colaterais maior do que a própria substância testada, no caso as estatinas.

A interrupção do tratamento com estatinas já foi estudado pela ciência. Pacientes que interromperam o seu uso comparados aos que não interromperam tiveram eventos cardiovasculares adicionais. Para cada 59 pacientes do estudo, um evento poderia ter sido evitado. Levando em consideração que existem 56 milhões de americanos candidatos ao uso de estatina, esses números reverberam.

Há que se considerar, ainda, que a mortalidade cardiovascular vem reduzindo mundo afora (EUA, Suécia, Reino Unido). Dentre muitos fatores, um deles é o tratamento do colesterol com estatinas. Cada vez mais evidências apontam que a redução do colesterol traz benefícios à população de muito risco e de risco, como os diabéticos com infarto e os não diabéticos infartados, os pacientes com doença renal crônica e também os que já apresentam evidência subclínica de aterosclerose, hipertensos e tabagistas.

Não podemos perder a batalha do coração para sites de internet com propagação de conteúdos sem evidências científicas. A ciência avança na descoberta de novas drogas ainda mais potentes para o tratamento do colesterol. E as evidências de benefício continuam mesmo para colesterol, o mau colesterol, tão baixos quanto 50 mg/dL especialmente.

Qual o nível de colesterol que você quer para o seu coração? Pergunte ao seu médico de confiança.

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