EDITORIAL » Filhos da violência

Publicação: 09/08/2017 03:00

Em mais da metade das denúncias relativas à violência contra a mulher no Nordeste há pelo menos uma outra vítima invisível calada, agredida física ou psicologicamente e que carrega consigo traumas por toda uma vida. São crianças e adolescentes expostos à violência praticada por um homem contra a mãe. Uma média de 55,2% de filhos de mulheres vitimadas nos nove estados da região dizem que já presenciaram agressões assim. As taxas variam de 44%, no caso de São Luís no Maranhão, a 64% em João Pessoa na Paraíba. De cidade para cidade, a diferença estatística é mínima. No Recife, 52% de meninos e meninas entrevistados confirmaram terem sido testemunhas oculares dos horrores sofridos pelas suas genitoras.

Os filhos da violência contra a mulher são objetos de poucos estudos, mas cada subseção que se investiga torna o tema mais grave. É alarmante quando se trata de agressões físicas estendidas às crianças, por exemplo. Na capital pernambucana estima-se que, em cada 100 mulheres agredidas, existem 20 crianças alvejadas por agressores. Algumas ainda enquanto estão no ventre da mãe, considerando que o índice de violência doméstica durante a gravidez é de 6,6% no Recife, podendo chegar a 11,9% em Natal, no Rio Grande do Norte. São amostras relevantes estudadas por equipes da Universidade do Ceará (UFC), Institute for Advanced Study in Toulouse e o Instituto Maria da Penha, que levantam o debate sobre medidas integradas para toda a família atingida. Que pense na segurança do presente e no impacto futuro - vislumbrando inclusive o fim da perpetuação comportamental, conforme mostram alguns estudos.

Quem vive ou viveu o drama sabe como se deve dar luz ao tema. Esta semana, Maria da Penha, farmacêutica e vítima que inspirou a lei para punir agressores, por passagem da data que marca a luta contra a violência contra a mulher, concedeu várias entrevistas. Entre as suas declarações chama a atenção a referência dela aos medos sofridos quando seu marido tentou matá-la por duas vezes: o do risco de perder a guarda das filhas para um pai violento e o de deixá-las órfãs. “As crianças que perdem as mães são as maiores vítimas da violência doméstica”, acrescenta uma das maiores ativistas do Brasil. O assunto merece mais atenção.

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