Sobre Aeroportos I

Luzilá Gonçalves
Doutora em Letras pela Universidade de Paris VII e Membro da Academia Pernambucana de Letras

Publicação: 08/08/2017 03:00

Jornais da semana passada noticiaram; o aeroporto de Guararapes é um dos melhores do Brasil. Considerando acomodações, prestação de serviços, beleza da arquitetura, essas coisas que ajudam a gente a melhor passar o tempo de espera, um certo medo ante expectativas (veja-se Morte no avião, de Carlos Drummond de Andrade) a afirmativa parece verdadeira. Aeroportos devem ser lugares aprazíveis, cartas de apresentação de uma cidade, de um país, que deveriam abrir os braços, confiantes, a viajantes que buscam solução de negócios, ou a turistas, desejando fugir do cinzento cotidiano. Pois sim.

Depois de uma longa noite de sono ou insônia, acendem-se as luzes da aeronave (!), você olha pela janelinha, vê o Tejo, o casario de Lisboa velha cidade cheia de encanto e beleza, sempre formosa a sorrir, respira aliviado. Chegamos, cheguei, uff. Aliviado? E ai coisa muda. Corredores, setas, indicam o primeiro caminho a tomar. E você topa com uma fila nunca antes imaginada, dezenas, centenas (verdade!) de pessoas, classe média alta, que nunca souberam o que é fila no SUS. Idosos pacientes, crianças sonolentas e mesmo assim levadas, você anda, anda, anda, e encontra um primeiro aviso: a partir de aqui você tem 45 minutos de espera. Anda, anda, anda, um segundo aviso: a partir de aqui você tem trinta minutos de espera. Juro que não minto. Quando chega sua vez, ainda bem que você é brasileiro e não tem cara de terrorista, a coisa corre leve. Leve? Mais adiante, controles de praxe, você passa. Mas sua bagagem de mão merece busca apurada. Um senhor delicado faz as perguntas usuais: traz líquidos, cremes, etc. Não senhor. Mas ele: mesmo assim vá para aquele lado. Abre a valise, remexe, remexe. A delicadeza desaparece. Sério, passa um pó branco nas mãos, continua a busca. Olha pra gente, hesita, essa senhora idosa estará passando droga? A senhora idosa faz seu melhor sorriso, o de número três. Ele coça a cabeça. Pergunta: e esse pacote aí na mão? É um bolo? É, comprei no aeroporto, faz anos que meu filho não come um bolo de rolo. Ele: vai ver seu filho? E eu: mora na França, não nos vemos há quatro anos. Ele: a senhora sabia que não pode entrar aqui com comida? Eu cínica: não sabia não. E ele: vá, por essa vez. Foi assim, que esse pedaço de nosso patrimônio cultural (!) me salvou. Mas me deixem chegar na França, que vocês vão ver. Continuo na próxima semana.

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