EDITORIAL » Acabou o diálogo

Publicação: 08/08/2017 03:00

Esperava-se que os sombrios anos de chumbo da segunda metade do século passado tivessem ficado para trás. Ditaduras violentas que varreram a América do Sul deixaram saldo sangrento que se traduziu em perda de vidas, desrespeito aos direitos humanos, cerceamento da liberdade, barreira para formação de líderes políticos sintonizados com a modernidade. Com o avançar dos anos era tal a rejeição aos que tomaram o poder à força que se tornou mantra a repetição:”Regime de exceção nunca mais”.

A Venezuela, porém, quebrou a regra. De degrau em degrau, sepultou as instituições democráticas nacionais. O último golpe se deu em 30 de julho com a eleição da Assembleia Nacional Constituinte (ANC). Segundo Antonio Mugica, diretor-executivo da empresa contratada pelo governo para fornecer a tecnologia eleitoral, “a votação foi manipulada em pelo menos 1 milhão de votos”.

Apesar da fraude, os constituintes tomaram posse em 4 de agosto. Entre eles, a mulher e o filho de Nicolás Maduro. Na prática, significa a dissolução do Legislativo, único poder que não tinha se curvado à opressão. A Assembleia Nacional, eleita democraticamente em dezembro de 2015, não conseguiu funcionar na sua plenitude. Maduro, em conivência com a Suprema Corte, tolheu-lhe o caminho: suspendeu direitos dos parlamentares, enterrou a imunidade e se apoderou de atribuições legislativas.

Os atos de violência, aliados à repressão policial, serviram de estopim para os protestos de rua. O balanço acende a luz vermelha no continente. Nos protestos contra Maduro, que se intensificaram há quatro meses, mais de 5 mil pessoas foram presas e 130 perderam a vida, 15 das quais no dia da eleição da ANC. Não só. Os líderes oposicionistas Leopoldo López e Antonio Ledezma, que cumpriam prisão domiciliar, voltaram ao regime fechado sem explicação plausível.

Reações externas não faltaram. O secretário-geral da Organização dos Estados Americanos disse que o pleito foi “a maior fraude eleitoral na história da América Latina em termos percentuais e em milhões de votos”. Brasil, Estados Unidos, União Europeia, ONU, Mercosul e a Anistia Internacional criticaram a Constituinte e denunciaram processos de repressão em curso.

O cenário não parece acenar com boas-novas para a nação vizinha. Países — Estados Unidos à frente —, ameaçam com boicotes e sanções o já caótico quadro econômico e social de Caracas. A população, privada de alimentos, remédios, energia e segurança, enfrenta crise humanitária. Para sobreviver, só encontra saída na emigração. Os países vizinhos, Brasil entre eles, recebem levas de refugiados que precisam de acolhimento digno.

Não interessa à América do Sul a sobrevivência de ditadura cuja única meta é a manutenção do poder sustentado pela força. Há de buscar resposta que, de um lado, devolva o regime de franquias democráticas ao país. E, de outro, não agrave o caos econômico e social em que se encontra. É tarefa difícil. Faltam pontes para o diálogo.

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