Festa literária realiza a melhor edição com Lima Barreto

Raimundo Carrero

Publicação: 07/08/2017 03:00

A Imprensa não me deixa mentir: a edição deste ano da Festa Literária Internacional de Paraty – FLIP - foi a melhor de todas desde a criação em 2003 e recuperou o prestígio de um evento que apresentava desgastes e era realizado com enorme sacrifício porque  faltava-lhe recursos. A curadora Josélia Aguiar escolheu o escritor Lima Barreto para homenageado e provocou um amplo e enriquecedor debate sobre racismo.

Sim, racismo, sim, porque Lima foi humilhado, maltratado e ofendido porque era negro, sobretudo negro e, ao longo do tempo, a elite literária do País procurou desconhecê-lo. Um abuso e uma indignidade, até porque não poderia ser diferente no País que demorou muito a acabar com a escravidão. O escritor fluminense levou para a sua vasta obra as dores, os gritos e os gemidos de uma raça que precisou de muito sangue para pedir justiça e mostrar suas qualidades.

Pois é, o foco nesta obra magistral mobilizou a juventude brasileira que ocupou Paraty durante cinco dias com cânticos e poemas, muita poesia, muita ficção, músicas e debates. Liderada pelo ator Lázaro Ramos, esta juventude lembrou os melhores dias de reivindicação popular nas cidades brasileiras, reclamando liberdade e paz.

Destaque-se, ainda, a presença sempre provocadora de Diva Conceição, uma anônima professora paranaense que prestou um depoimento emocionante, rico e cativante para colocar em exame este racismo brasileiro com suas esquisitices e negativas.

Um racismo que ainda pulsa forte nas veias de uma elite branca que nega espaço ao negro, mesmo a um negro chamado Lima Barreto que, em muitos casos, parece  inédito e desconhecido. Um Lima Barreto que  nem mesmo chegou às nossas escolas. Talvez por ser negro, gay e alcoolatra.

É preciso que as nossas escolas – seguindo o exemplo da FLIP – façam os livros de Lima Barreto circularem para que temas tão definitivos como o racismo e a injustiça social, tão esquecidos nos tempos mais recentes, sejam debatidos. Não é, por acaso que Josélia Aguiar é da Bahia, berço de Gilberto Gil e de Mestre Pastinha, tão bem exaltado por Jorge Amado.

Os Diários do escritor fluminense – Cemitério dos Vivos – são aterradores e narram sua passagem por hospícios, obrigado a lavar sanitários, sem qualquer respeito ao título de jornalista e de escritor consagrado. Vamos logo à obra de Lima Barreto.

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